Ela

Ela atravessava a rua sem olhar direito para os lados. Apenas olhava de canto de olho e seguia. Não sabia o que viria a seguir. E se um carro a pegasse e ela passasse a não mais existir? Seria essa uma atitude de deboche diante do destino? Ou uma incapacidade de lidar com a realidade? Nem mesmo ela sabia. As pessoas também são enganadas por elas próprias.

            Ela também gostava de observar o vento enquanto caminhava. Ela via o vento, sabia de sua existência. Olhar para o alto era bom. Olhar para a frente, ao redor, poderia ser perigoso. Ela poderia se deparar com algo cruel e perder a fé na vida. Perder a fé nas pessoas. Ela ainda acreditava nas pessoas, mas não aguentaria mais um escorregão.

            Quem era ela? Nem ela sabia direito. Em vinte e tantos anos de vida já havia descoberto muito sobre si. Já havia se decepcionado muitas vezes também – com ela e com os outros, quer dizer. Era difícil sentir e ter que viver ao mesmo tempo. Mesmo assim, ela sabia que assim era a vida. Era preciso ter algum sentido nisso tudo.

            Era preciso ter sentido o trabalho em que ela trabalhava. Era preciso ter sentido a vida que ela levava. Algum sentido tinha que ter. Ela ainda esperava algum milagre na vida dela, algo que a mostrasse o puro além do profano ( “ se os santos já tinham presenciado milagres, por que ela não conseguiria? O que haveria de diferente entre eles?”). Ainda não havia presenciado nenhum milagre, mas ainda esperava por ele, sabia que ia acontecer. Seria isto a fé? Era o que ela sempre se perguntava.

             E a sua vida seguia sempre assim: acordando, tomando café, tomando banho e seguindo rumo ao trabalho e ao seu suposto destino de se deparar algum dia com o inexplicável. O inexplicável que irá explicar para ela tudo: a origem do mundo, o sentido da vida, o ser humano por inteiro e mesmo as músicas dos Beatles. Beatles era para ela uma religião: se eles disseram que “all we need is love”, ela acreditava que só precisava do amor para viver. E ia precisar do que mais? Dinheiro talvez, mas isso era pra outra história.

            A sua rotina só era alterada em decorrência das férias. A sua rotina, mas não seu objetivo: seria mais possível presenciar um milagre junto ao mar? Todas as férias ela ia para a praia. Amava a água e ficava fascinada e desconcertada diante do mistério do mar. Entrar no mar a proporcionava a mesma sensação do que atravessar a rua sem olhar direito para os lados.

 As suas viagens pra praia se resumiam a entrar no mar e ficar observando o mar. A sensação era indescritível. Esta não estava sendo diferente. No terceiro dia da viagem, ela perdeu a hora e ficou até mais tarde. Chegou mesmo a ver o pôr do sol lá, e se perguntou o motivo de não ter tido esta ideia antes. Permaneceu lá olhando e olhando e o horizonte escurecendo...

E, assim, de repente, como os grandes acontecimentos da vida, percebeu o que estava se passando ao redor dela: alguém, dentro da água, se debatia e parecia estar se afogando. Olhou ao redor, mas não havia mais ninguém lá; estava escuro e ela estava sozinha. Era preciso fazer algo. Ela tinha que fazer algo, estava ali por algum motivo.

Mas, o que fazer? Após finalmente conseguir se desprender da paralisação, foi correndo em direção ao mar. Já estava um pouco frio, era o vento da noite que entra que a alcançava.

Ao entrar no mar e chegar na pessoa que se debatia, pode perceber que era uma moça que aparentava ter a mesma idade que ela. Começou a nadar em direção o mais rápido que pode, não podia sentir cansaço quando havia uma vida em risco. Finalmente estava chegando perto, quando conseguiu agarrar a moça e tentava puxá-la de volta para a areia. Foi então que...

- Ei, me larga, quem te chamou aqui?

- Como assim?! Eu vim te salvar!

- Mas, eu não pedi para você me salvar, eu não quero que ninguém me salve. Eu quero que você me deixe em paz.

-Ué, mas você está tentando se matar?

- E então, o que mais parece? Vai embora que você está me atrapalhando!

- Mas, como assim você quer acabar com a sua vida? E o sol? E os pássaros? E os ventos? Nada disso importa para você?

- Por acaso você é doida? Mesmo que isso me tocasse de alguma forma, você teria chegado tarde.

- Desculpa, mas eu não posso deixar você se matar, pelo menos não na minha frente – disse isso, puxando a provável suicida de volta para a areia.

            Mesmo tentando com muita força, ainda assim não conseguia carregá-la para longe do mar. As duas ficaram se debatendo por um tempo, até que não tinham mais forças. Ela não agüentava mais, não iria agüentar. Começou, então, a chorar:

            - Por favor, não faz isso! Pelo menos não na minha frente! Por favor, por favor, eu não vou conseguir viver, nunca mais vou esquecer, vai ser uma punhalada do universo em mim...

            A suicida deixou de ser suicida, pelo menos naquele momento. Não sabia mais o que fazer, apenas virou as costas e saiu do mar. Ela, mesmo vendo a menina ir embora, não conseguia parar de chorar. Saiu carregando o choro do mar e o seu próprio choro.

            Agora já estava escuro, conseguia enxergar apenas os postes das ruas. Voltou para a sua toalha, voltou para as suas coisas, jogando-se na areia sem forças.

Foi então que o pensamento surgiu: Estaria ela nesse dia ali para salvar uma vida? Seria um milagre? Seria um acaso ou fruto de uma inteligência superior do universo? Não sabia, mas preferia escolher a narrativa do milagre e assim continuar sua vida. Afinal, a fé é questão de escolha.

Posted on April 11, 2017 .

Reflexões em um Dia chuvoso

Nada que incite mais a reflexão do que uma manhã de sábado nublada e quase chuvosa. Quer dizer, caso seja domingo, a introspecção pode ser ainda mais profunda. Vamos supor então que hoje é um domingo chuvoso, que você acordou lá pelas 10 horas da manhã com uma boa espreguiçada, esperando o maior sol do mundo para ir ao parque.  Já com um sorriso no rosto, imaginando que a sua pele vai receber um beijo de bom dia do sol, você se decepciona: não há nada de beijo de sol, o que há é um lamento de chuva.

Vamos supor então que você fique tão frustrada, tão mal-humorada com a situação que decide não sair de casa coisa alguma – e ai de quem te convidar para fazer um passeio!! Vai ouvir todas as reclamações que você tem pelo fato do senhor tempo ter estragado todos os seus planos. ( Mas, que horrível esse Senhor Tempo não?).

Bom, você decide então ( continuando no campo da suposição) continuar de pijama, colocar sua pantufa mais confortável ( sempre sonhei em poder sair com a minha velha pantufa para um dia de trabalho, talvez eu possa realizar esse sonho insano em um dia de ficção), pegar uma caneca com café fresquinho e sentar em uma poltrona com o livro da vez – supondo, claro, que você seja uma leitora praticante e que em seus momentos de descanso goste de pegar um livro para passar o tempo. Mas, nesse dia específico, você não consegue ler, não há nada que tire da sua cabeça a frustração de não poder cumprir seus planos tão metodicamente esquematizados no dia anterior, com tanto carinho e convicção.

 E, como você não permite a frustração ir embora, você se agarra a ela e começa a trazer ladeira abaixo todas as outras frustações que a vida te trouxe: o emprego e chefe chato, o namorado que não dá atenção suficiente, a falta de aventura na sua vida e a inexistência da viagem anual a Paris tão sonhada. É de se esperar: aos 30 anos você já planejava metodicamente (tão metódicamente como seus planos de ir ao parque nesse domingo que supostamente seria um dia lindo de sol) ser rica, ter filhos e marido da família Doriana e um emprego perfeito que te faça feliz todos os segundos da sua vida.

Pois é, meu bem, você e a torcida do Flamengo desejam isso. O problema é que nós da torcida do Flamengo não queremos encarar nada de frente. Não queremos encarar que nem todos os segundos são felizes e que, muitas vezes, as nossas expectativas no momento são surreais. Mas também não queremos encarar que muitas vezes não encaramos nada de frente, e sempre adiamos o primeiro passo do resto de nossas vidas. Não queremos encarar que ao dar o primeiro passo, ainda há outros passos que temos que dar, e muitas vezes teremos que nos levantar dos tropeços pelo caminho.

É nesse momento que, vamos imaginar, você se surpreende com o seu pensamento e respira um pouco aliviada. Você tira o tom melódico e triste de Felicidade de Lupicínio Rodrigues de sua mente ( uma ironia total essa música : não há nada de atmosfera de felicidade nela, assim como você achou que o sol seria a felicidade da sua vida) e vai para um samba mais alegrinho, um samba de Noel: com que roupa vou viver minha vida hoje? Aí você levanta da poltrona agitada e já faz mil panos na cabeça para o seu dia, mas, volta a respirar um pouco , decide continuar na poltrona e põe uma música na sua vitrola ( vamos supor que você é adepta de coisas vintage e ame música e vinis). E aí, você fica só ouvindo música com você mesma...

Posted on November 7, 2015 .

Negativo

Ela estava sentada na poltrona sentindo-se abraçada pela faixa de luz que tocava levemente sua pele. Livros espalhados pelo chão, pullover cinza já com bolinhas- gostou de pensar em pullover, a fazia sentir em um dos contos de Alice Munro por uma razão incompreensível a olhos nus -e uma caneca de café mantida quente pelo calor das suas próprias mãos. Poderia ficar eternizada ali, saberia ser mais fácil. Poderia materializar-se em uma pintura, Monet certamente saberia captar a impressão do momento.

A sensação de estátua acentuava-se quando já desejava não ser. Pensar em movimento é também sofrer paralisia: se o mundo é ser movimento porque queria não ser? Movimento paralisa, já disse, asfixia. Escrever é movimento ou escrever é asfixia? Quanto mais pensava, mais se assustava com o peso de seus pensamentos. Qual o movimento que essas letras dançaram até esse papel? Já sabia a coreografia do começo ao fim.

 Agora já não estava mais sendo beijada pela luz. Estava na Segunda Guerra Mundial, na derrubada de Allende pelos militares em 1973, na morte de Rubem Braga. Estava nas pontes de Madison, Hiroshima, Bossa Nova. Graciliano concebendo Vidas Secas e Godard sonhando com Pierrot Le Fou. Viu toda a história em um negativo sendo projetado na parede de sua sala. Viu até o começo dos novos tempos. The End.

As voltas pelo universo cessaram. Abriu um dos livros (penso ser algum de Clarice Lispector) e escreveu uma linha, como se uma anotação de algo que aquelas letras a haviam inspirado: imaginar é viver.

Posted on January 19, 2015 .

O amor começa

O amor começa onde tem que começar. O amor começa onde não tem que começar. O amor começa em um poema de Vinícius de Moraes. O amor começa nas pontes de Madison.

O amor começa em dias quentes. O amor começa em dias frios. O amor começa quando ele está vestido de mulher na Lei Seca de 1929. O amor começa nos ventos frios de Nova Iorque quando o apartamento dele está ocupado por outros.

O amor começa no árido do Nordeste. O amor começa na Rússia do czar. O amor começa na morte da Baleia. O amor começa nas festas da corte.

O amor começa no som. O amor começa no silêncio. O amor começa porque os sonhos não envelhecem (encontrar o amor é válido até o fim da vida). O amor começa, termina, gera um explosão e cria-se todo o Universo em Deus.

O amor começa no infinito esplêndido do Rio Negro. O amor começa na paulicéia desvairada. O amor começa no beijo do Rio Negro e Solimões. O amor começa em encontros no trânsito.

O amor começa na liberdade. O amor começa na prisão. O amor começa na imensa, indizível liberdade. O amor começa quando ela beija a mão do condenado na cela da prisão.

O amor começa no ódio. O amor começa, acima de tudo, no amor. O mundo é amor.

Posted on July 4, 2014 .

Pau de Arara

Luís estava na porteira observando a imensidão de poeira que se erguia no ar. De dentro  da casa vinha a melodia que seu pai escutava na cadeira de balanço: “ Luiz respeita Januário”. Quem era Januário? Luís ficava muito intrigado sobre a causa de esse nome impor tanto respeito.

Era toda uma cadeia de intrigas: quem era esse Luiz que era igual, mas diferente? Seu pai havia mostrado uma vez um disco desse desconhecido íntimo, e ele sabia o que era diferente.  Não bastasse esse mistério de se reconhecer em outro alguém, seu pai chamava-se Juvenal. Juvenal com J de Januário. Queria seu pai lhe passar um recado? Seria Januário o homem a chegar durante uma noite estrelada e fazer chover nesse lugar? Não tinha água lá, mas tinha muitas estrelas. E isso bastava.

Todo mundo achava que no sertão do Nordeste faltava água. Para Luís, o melhor era não ter. Ele sabia que água era bom para as plantações e para os animais que seu pai cuidava, mas era a falta dela que dava aquele lugar o aspecto que mais gostava: o horizonte arenoso, da poeira que se erguia toda vez que a terra mexia. Era como a história “As Mil e Uma Noites” que seu pai contava. Passava no deserto, e só de ouvir o que acontecia ele já sentia a poeira voando.

 A Xerazade contava as histórias ao rei Xariar para sobreviver. Luís imaginava suas histórias na poeira para viver.  A próxima história seria do Januário. Alto? Não, baixo. Mas, não por isso ele não era forte, Januário era o maior. E além de tudo, era seu pai que dizia que era alguém de respeito. Quando crescer queria ser como Januário. Luís não queria ser rico, não precisava ter uma casa como seu pai, queria era respeito. Mas, será possível alguém não ter casa e ter respeito? Para ser alguém era preciso ter casa, quanto mais casas se têm, um alguém maior você é.

O Coronel  Ezequiel tinha muitas casas e por isso todo mundo tinha medo dele. Ele tinha tantas casas que poderia até ter pessoas. Pessoas que trabalhavam para fazer tudo que ele queria. Acho que o senhor de respeito Januário virá durante a noite matar o coronel Ezequiel e ficar com todas as casas dele.

“Respeita os oito baixo do teu pai”. Acabou a música e o pai chamou Luís para dentro de casa, não era hora de menino ficar na rua. Respeita os oito baixo do teu pai.

Posted on June 23, 2014 .