Pau de Arara

Luís estava na porteira observando a imensidão de poeira que se erguia no ar. De dentro  da casa vinha a melodia que seu pai escutava na cadeira de balanço: “ Luiz respeita Januário”. Quem era Januário? Luís ficava muito intrigado sobre a causa de esse nome impor tanto respeito.

Era toda uma cadeia de intrigas: quem era esse Luiz que era igual, mas diferente? Seu pai havia mostrado uma vez um disco desse desconhecido íntimo, e ele sabia o que era diferente.  Não bastasse esse mistério de se reconhecer em outro alguém, seu pai chamava-se Juvenal. Juvenal com J de Januário. Queria seu pai lhe passar um recado? Seria Januário o homem a chegar durante uma noite estrelada e fazer chover nesse lugar? Não tinha água lá, mas tinha muitas estrelas. E isso bastava.

Todo mundo achava que no sertão do Nordeste faltava água. Para Luís, o melhor era não ter. Ele sabia que água era bom para as plantações e para os animais que seu pai cuidava, mas era a falta dela que dava aquele lugar o aspecto que mais gostava: o horizonte arenoso, da poeira que se erguia toda vez que a terra mexia. Era como a história “As Mil e Uma Noites” que seu pai contava. Passava no deserto, e só de ouvir o que acontecia ele já sentia a poeira voando.

 A Xerazade contava as histórias ao rei Xariar para sobreviver. Luís imaginava suas histórias na poeira para viver.  A próxima história seria do Januário. Alto? Não, baixo. Mas, não por isso ele não era forte, Januário era o maior. E além de tudo, era seu pai que dizia que era alguém de respeito. Quando crescer queria ser como Januário. Luís não queria ser rico, não precisava ter uma casa como seu pai, queria era respeito. Mas, será possível alguém não ter casa e ter respeito? Para ser alguém era preciso ter casa, quanto mais casas se têm, um alguém maior você é.

O Coronel  Ezequiel tinha muitas casas e por isso todo mundo tinha medo dele. Ele tinha tantas casas que poderia até ter pessoas. Pessoas que trabalhavam para fazer tudo que ele queria. Acho que o senhor de respeito Januário virá durante a noite matar o coronel Ezequiel e ficar com todas as casas dele.

“Respeita os oito baixo do teu pai”. Acabou a música e o pai chamou Luís para dentro de casa, não era hora de menino ficar na rua. Respeita os oito baixo do teu pai.

Posted on June 23, 2014 .