Negativo

Ela estava sentada na poltrona sentindo-se abraçada pela faixa de luz que tocava levemente sua pele. Livros espalhados pelo chão, pullover cinza já com bolinhas- gostou de pensar em pullover, a fazia sentir em um dos contos de Alice Munro por uma razão incompreensível a olhos nus -e uma caneca de café mantida quente pelo calor das suas próprias mãos. Poderia ficar eternizada ali, saberia ser mais fácil. Poderia materializar-se em uma pintura, Monet certamente saberia captar a impressão do momento.

A sensação de estátua acentuava-se quando já desejava não ser. Pensar em movimento é também sofrer paralisia: se o mundo é ser movimento porque queria não ser? Movimento paralisa, já disse, asfixia. Escrever é movimento ou escrever é asfixia? Quanto mais pensava, mais se assustava com o peso de seus pensamentos. Qual o movimento que essas letras dançaram até esse papel? Já sabia a coreografia do começo ao fim.

 Agora já não estava mais sendo beijada pela luz. Estava na Segunda Guerra Mundial, na derrubada de Allende pelos militares em 1973, na morte de Rubem Braga. Estava nas pontes de Madison, Hiroshima, Bossa Nova. Graciliano concebendo Vidas Secas e Godard sonhando com Pierrot Le Fou. Viu toda a história em um negativo sendo projetado na parede de sua sala. Viu até o começo dos novos tempos. The End.

As voltas pelo universo cessaram. Abriu um dos livros (penso ser algum de Clarice Lispector) e escreveu uma linha, como se uma anotação de algo que aquelas letras a haviam inspirado: imaginar é viver.

Posted on January 19, 2015 .