Reflexões em um Dia chuvoso

Nada que incite mais a reflexão do que uma manhã de sábado nublada e quase chuvosa. Quer dizer, caso seja domingo, a introspecção pode ser ainda mais profunda. Vamos supor então que hoje é um domingo chuvoso, que você acordou lá pelas 10 horas da manhã com uma boa espreguiçada, esperando o maior sol do mundo para ir ao parque.  Já com um sorriso no rosto, imaginando que a sua pele vai receber um beijo de bom dia do sol, você se decepciona: não há nada de beijo de sol, o que há é um lamento de chuva.

Vamos supor então que você fique tão frustrada, tão mal-humorada com a situação que decide não sair de casa coisa alguma – e ai de quem te convidar para fazer um passeio!! Vai ouvir todas as reclamações que você tem pelo fato do senhor tempo ter estragado todos os seus planos. ( Mas, que horrível esse Senhor Tempo não?).

Bom, você decide então ( continuando no campo da suposição) continuar de pijama, colocar sua pantufa mais confortável ( sempre sonhei em poder sair com a minha velha pantufa para um dia de trabalho, talvez eu possa realizar esse sonho insano em um dia de ficção), pegar uma caneca com café fresquinho e sentar em uma poltrona com o livro da vez – supondo, claro, que você seja uma leitora praticante e que em seus momentos de descanso goste de pegar um livro para passar o tempo. Mas, nesse dia específico, você não consegue ler, não há nada que tire da sua cabeça a frustração de não poder cumprir seus planos tão metodicamente esquematizados no dia anterior, com tanto carinho e convicção.

 E, como você não permite a frustração ir embora, você se agarra a ela e começa a trazer ladeira abaixo todas as outras frustações que a vida te trouxe: o emprego e chefe chato, o namorado que não dá atenção suficiente, a falta de aventura na sua vida e a inexistência da viagem anual a Paris tão sonhada. É de se esperar: aos 30 anos você já planejava metodicamente (tão metódicamente como seus planos de ir ao parque nesse domingo que supostamente seria um dia lindo de sol) ser rica, ter filhos e marido da família Doriana e um emprego perfeito que te faça feliz todos os segundos da sua vida.

Pois é, meu bem, você e a torcida do Flamengo desejam isso. O problema é que nós da torcida do Flamengo não queremos encarar nada de frente. Não queremos encarar que nem todos os segundos são felizes e que, muitas vezes, as nossas expectativas no momento são surreais. Mas também não queremos encarar que muitas vezes não encaramos nada de frente, e sempre adiamos o primeiro passo do resto de nossas vidas. Não queremos encarar que ao dar o primeiro passo, ainda há outros passos que temos que dar, e muitas vezes teremos que nos levantar dos tropeços pelo caminho.

É nesse momento que, vamos imaginar, você se surpreende com o seu pensamento e respira um pouco aliviada. Você tira o tom melódico e triste de Felicidade de Lupicínio Rodrigues de sua mente ( uma ironia total essa música : não há nada de atmosfera de felicidade nela, assim como você achou que o sol seria a felicidade da sua vida) e vai para um samba mais alegrinho, um samba de Noel: com que roupa vou viver minha vida hoje? Aí você levanta da poltrona agitada e já faz mil panos na cabeça para o seu dia, mas, volta a respirar um pouco , decide continuar na poltrona e põe uma música na sua vitrola ( vamos supor que você é adepta de coisas vintage e ame música e vinis). E aí, você fica só ouvindo música com você mesma...

Posted on November 7, 2015 .