Os diversos ângulos da vida

Uma das minhas paixões: cinema. Eu não vivo sem cinema e literatura, fazem parte da minha rotina como escovar os dentes, ou rezar antes de dormir. Algumas vezes me questiono se já virou um hábito que não consigo largar, um vício. Mas, logo, me deparo com palavras e imagens que bagunçam a minha cabeça, ampliando a minha compreensão do mundo. E, então, eu me aquieto em paz.

Ontem foi um desses dias como outro qualquer que o cinema, mais uma vez, mudou meu mundo. Adianto que não posso dizer que assisti ao melhor filme da minha vida, mas, certamente, assisti a um filme que me marcou. Passeando pelo Net Now, em busca de algo para relaxar ( sou dessas que assiste filmes para aprender, mas também para relaxar após um longo período de trabalho), encontreio filme “Dois Lados do Amor”.  Este é um filme do americano Ned Benson, que tem no elenco a Jessica Chastain e o James McAvoy. Confesso que não sei nada da carreira de qualquer um deles, mas isso não é o caso; pois, foquemos no filme.

Bom, pelo título “Dois Lados do Amor”, concluí, inocentemente, que se trataria de um clássico romance água com açúcar, daqueles para rir e se emocionar no final.  Belo engano! Na realidade, está mais para um drama, ou melhor: o drama que envolve viver a vida e amar alguém. Neste caso, o drama central do filme é bem pesado ( eis aqui o momento spoiler, pare neste ponto caso não queira saber mais) : um jovem casal bem apaixonado perde o seu filho que era praticamente recém-nascido.

Como cada pai resolve agir de uma forma e enfrenta uma série de conflitos, algo totalmente normal dado a situação, uma estranha dor passa a habitar a vida dois dois. A mãe, não aguentando a ausência que o filho deixara, tenta um suicídio que não dá certo. Decide, então, pedir para o marido se afastar dela sem maiores explicações. Tirando as lágrimas escorridas durante todo o filme, o que mais me marcou mesmo foi a comparação entre duas cenas.

Em uma delas, a mãe, Eleanor Rigby ( como na música dos Beatles)  queixa-se com a irmã que seu marido, Connor, pareceu não ter se importado nada com a situação. Após a morte do filho, Connor, teria dito ela, apenas jogou as coisas de Cody no armário e pediu comida chinesa. Entretanto, isso pode não ter sido bem assim.  Mais para frente, em uma conversa com o pai, Connor revela um pouco mais sobre seus sentimentos. Ele diz que após a morte do filho, havia tentado evitar de qualquer forma qualquer lembrança ou memória dele, afinal, era muito para aguentar.

Claro que há outros aspectos tão complexos quanto este na trama, como em qualquer relacionamento. Mas, esses simples diálogos me fizeram pensar: quantas vezes não julgamos o outro pela sua reação? Quantas vezes não elaboramos a situação na nossa cabeça, com o nosso ponto de vista particular, sem ao menos conversar com as outras partes envolvidas?

Triste pensar em quantos relacionamentos terminam pela falta de comunicação, quantas amizades não existem mais pela falta de compreensão. Ainda bem que há o amanhã ( às vezes) e que podemos recomeçar a cada dia. Ainda bem, também, que há o cinema para nos mostrar quantas vezes somos uns idiotas em nossas vidas. 

Posted on May 18, 2016 .

Hanami, Cerejeiras em Flor

Sempre pensamos que temos tempo, sempre pensamos que temos tempo suficiente. Mas, aí, passa um dia, o outro dia, passa o almoço, o jantar e mais um café da manhã, e permanecemos nos movendo através de uma coreografia automatizada que não tem o menor movimento.

E, no entanto, a vida é efêmera, em um segundo a vida passa. A vida brota como as flores das cerejeiras: florescem e em poucos dias e logo não estão mais lá, poucos dias e se vão. E aí só no próximo ano, no outro ano, até você não estar aqui mais para praticar a contemplação da flor da cerejeira, ou hanami.

Assisti no último sábado um filme alemão belíssimo que trata justamente sobre isso: Hanami, Cerejeiras em Flor. Esse é um daqueles filmes que te golpeiam de tal forma que você fica dias com o seu pensamento orbitando em torno dele. Conta a história de um casal de meia idade que leva uma vida distante dos filhos, uma vida pacata na Baviera. A aparente tranquilidade sofre uma alteração quando Trudi descobre que o marido Rudi tem uma doença terminal e guarda o segredo para si.

O que fazer então?Teriam que fazer tudo que sonhavam, mas não haviam feito até então? Trudi convence o marido a visitar dois dos três filhos em Berlim, que não têm tempo para estar com os pais ( aqui, referência ao filme " Viagem a Toquio" de Ozu). Essa jornada começa a mostrar a diferença que pairava na família, mesmo entre Trudi e Rudi.  Trudi começa a mostrar o que escolheu abdicar: apaixonada pela cultura japonesa sonhava em ir ao Japão conhecer o Monte Fuji, e também era adepta da dança japonesa moderna butô, algo que o marido não entendia.

Após poucos dias de viagem para Berlim, decidem ir para a praia, onde acontece uma virada inesperada na história. Durante a viagem Trudi pergunta ao Rudi se ele não pensava em ter feito nada diferente na sua vida, ao que ele responde: não, iria trabalhar e retornaria para você da mesma forma. Isso que é o amor, da mesma forma que esse era o abismo entre os dois.

Trudi, então, morre repentinamente e o marido não sabe o que fazer a partir daquela nova realidade - a presença da pessoa amada e companheira de décadas é mais forte ainda em sua ausência. Rudi decide ir então para o Japão reencontrar a mulher.

Hanami é muito bem filmado e me encantei pelos detalhes que a diretora a todo o momento mostra. ( O que é a vida senão os detalhes do que vivemos?). Chega a ser angustiante o quanto Rudi perde ainda mais sua identidade: em um país que não entende nem o alfabeto, como se virar então? Acho essa uma metáfora perfeita para a perda do amor de uma vida inteira. A vida passa tão rápido e, de repente, nos vemos sem aqueles que amamos. Como pode ser possível ser indiferente a tudo isso? Como pode ser possível que tudo fique bem?

Acho incrível também quando Rudi vai em busca do Monte Fuji e o filme fica bem Ozu ( incluindo o plano de observador sentado em um tatami): e são tantos detalhes para apreciar no filme, assim como a vida no planeta! No entanto, a parte que mais me toca é quando o filho que mora no Japão pergunta o motivo de eles nunca terem ido visitá-lo: " sempre achamos que haveria tempo".

Há tempo? Não há respostas, nunca há respostas, a atitude mais eficaz ( e, obviamente, a mais clichê) é aproveitar cada segunda da vida. Assim como as flores das cerejeiras, nossa vida cai em poucos suspiros.

Posted on August 3, 2015 .

Sobre Pensamentos e Glauber Rocha

Esse texto não será uma crítica de cinema. Esse texto pode ser que seja uma crônica, mas não sei ao certo. Não sei, porque é uma incógnita aonde as palavras me levarão. ( E, pensando bem, não é assim com todo texto?). O que eu sei é que ontem eu assisti o filme "A Idade da Terra" do Glauber Rocha e,  apesar de muito tomada pelo filme, meus pensamentos vieram me povoar para mais uma vez me confundir e destruir castelos de areia que construo conforme acho ( muito pretensiosamente, não?) que adquiro mais experiência, que piso em um terreno mais seguro. Mais experiência ou mais confusão?

De uma maneira bem Glauber de se filmar, ele falava sobre terceiro mundo, religiosidade, e milhões de outras coisas que ainda serão estudadas para complementar a análise da obra de Glauber- Glauber não é para esse tempo, Glauber é além, e, talvez por isso, tenha ido muito cedo, o mundo não daria conta de Glauber Rocha. Mas, teve uma coisa que me chamou a atenção: tirania. Tirania do branco? Tirania do negro? Tirania do ser humano?

A história do mundo é feita de guerra, isso, infelizmente já ficou claro. Gostamos de colocar nossa boca no trombone para exigir nossos direitos, mas quando trata-se dos direitos dos outros é muito mais confortável fechar os olhos. Eu acredito que ainda temos que evoluir muito como espécie para vivermos em democracia. E o que é a democracia sem a utopia? Será que existe mesmo a democracia para o ego? Porque é do ser humano querer o melhor para si e sua própria segurança, em seu estado primitivo. É do ser espiritual enxergar além. E é doloroso enxergar além, porque é desconfortável e é feio- nossos defeitos são muito feios.

Penso que se Glauber tivesse vivo hoje estaria filmando sobre os mesmos temas, com uma mudança de atores ou de lugares, talvez. Mas, no fundo, as discussões ainda são as mesmas. Os nacionalismos estão aqui para garantir os direitos nacionais, será? Mas e os direitos humanos realmente, como se soletra? Existe direitos humanos para o homem?

Glauber chega e pisa em meus castelos de areia e ainda vai embora sem me dar nenhuma explicação, nenhuma pista. Volte mais uma vez Glauber, porque eu preciso de seu empurrão para não me acomodar.

E viva o cinema brasileiro!
 

Posted on June 15, 2015 .

O Sal da Vida

Eu sempre recorro à arte quando sinto que algo está errado,quando há um vazio tentando ser escancarado. ( Nunca entendido, acho que jamais irei comprrender tais questões, mas o que eu preciso é que o próprio vazio subentenda-se.) . E no dia que eu precisei botar o poema " Angústia" para fora, eu me deparei com " O Sal da Terra", filme sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado  dirigido pelo seu filho Juliano Salgado e (ninguém menos que) Wim Wenders.

Em um domingo quase adentrando a segunda, em uma sala das algumas do cinema do Frei Caneca,  poucas pessoas conseguiram se mexer ou esboçar qualquer reação depois do filme-  eu dentre uma delas. É difíicl construir palavras conexas sobre algo que te deixou tal marca profunda que você não consegue explicar. No entanto, farei o possível para transitar levemente pelas impressões que me  ficaram registradas.

O que falar do homem Sebastião Salgado? Um fotógrafo transformado assim, de repente, no meio de sua carreira de economista, e, acima de tudo, um homem com uma humanidade exacerbada. Sebastião olha além dos olhos, ele lança sua lente através da alma.  Mas, esse fotógrafo que enxergava o mundo também tornou-se pai, um pai muitas vezes ausente em virtude da sua missão de vida que constantemente o fazia navegar para terras longínquas de onde seu filho estaria.

Vejo, então, o filme com dois "enredos" centrados na figura de Sebastião homem/fotográfo: os caminhos que sua carreira foi se enveredando e como o seu papel de pai foi influenciado por isso. Enquanto seu filho era bem pequeno, Sebastião parte para uma de suas séries, " Outras Américas". Enquanto as fotos vão aparecendo em nossa frente, há a história de Sebastião por trás de cada imagem - cada imagem é uma história capturada. É impressionante notar a empatia que Sebastião constrói nas comunidades que visita, ele estava realmente interessado em conhecer o outro em seus mais profundos aspectos. E o resultado disso é a sua fotografia extremamente sensível.

Sua veia social começa a aparecer mais fortemente após uma viagem pelo Nordeste brasileiro, onde ele pôde encontrar toda a devastidão causada pela seca. O que mais me impactou foi a séria " Êxodos", em que ele esteve presente em algumas  das mais tristes passagens da história humana, como foi o caso da Guerra Civil de Ruanda em 1994. Sebastião pôde presenciar com a sua prórpia lente quão animalescos e desprovidos de compaixão podemos nos tornar com as crenças erradas. Em um de seus momentos mais desesperados, disse que diversas vezes deixou sua câmera de lado para chorar; e quando saiu dali estava doente na sua alma.

Quando achamos que Sebastião não mais poderia aguentar ( e nem nós espectadores, com a visão daquelas imagens lindamente horríveis) , ele decide fazer uma carta de amor ao planeta Terra, através de sua linda série  "Genesis".

Por fim ( do filme, não da história de Sebastião Salgado, para sorte do mundo), penso que como um presente de Deus por seu trabalho extraordinário de denúncia de tristes condições humanas que, como ele mesmo diz, o mundo inteiro precisava conhecer, ele retorna para sua terra natal em Minas Gerais, e diante daquelas terras, Lélia ( sua esposa e grande parceira de pesquisa e preparação dos livros e exposições) tem uma ideia maluca: por que não replantamos tudo?( Ufa, quase sem respirar para descrever a sensação do momento) O que não passava de um delírio torna-se uma mensagem de esperança para o mundo, concretizada em toda a cor verde que voltou a habitar o lugar e na criação do Instituto Terra. Ainda bem que pude suspirar ao final do filme, depois de tanto sangue derramado aos prantos.

Posted on April 7, 2015 .

O Alívio da Eternidade

Ontem muito aconteceu. A Guerra Fria permanece e vamos construindo, tijolo a tijolo, nossa própria versão do Muro de Berlin. Quem sabe, podemos até ganhar uma obra do Banksy nesse muro, para passarmos em frente durante a rotina massacrante, fingindo que não enxergamos nada, continuando assim nas nossas confortáveis ideologias, na confortável cadeira daquele tudo sabe. Melhor perder o amiguinho, perder o país, importante mesmo é estar sempre certo. Digo, lutar por um país melhor!

Mas, falando em Banksy, falando em arte, o que mais me impactou ontem foi justamente a arte! Ela, a minha forma de comunicar com o mundo, de me expressar, de fazer o meu coração seguir na cadência do ritmo e tocar algo que ainda faça sentido. Assistir ao primeiro longa do pernambucano Camilo Cavalcante, " A História da Eternidade", foi como um suspiro de alívio, algo como sentir que ainda estava viva ( viva o cinema pernambucano que vem fazendo o Brasil sentir-se vivo!!).

Ainda não consegui digerir esse filme e, certamente, não conseguirei enumerar aqui todos os aspectos cinematográficos ou de qualquer outro tipo dessa obra. Mas, pensando bem, a intenção não é fechar, finalizar, eu quero lançar minhas palavras para o espaço e fazer com que elas se propaguem, nasçam, renasçam e voltem a mim trazendo novos significados. Bom, mas voltando do céu para a arte ( e não seria o mesmo?), o filme se passa em uma minúscula comunidade do sertão e três histórias vão correndo no fluir da vida: uma senhora beata que espera a chegada do neto de São Paulo, uma menina, que sonha em ver o mar e uma viúva que está com medo do sentir.

Além das personagens femininas fortes, há os homens, como não poderia deixar de ser em uma sociedade em que a estrutura patriarcal ainda é muito evidente. Afonsina, a menina que queria conhecer o mar, vive para servir ao pai, um homem bruto e que não enxerga nada além de sua rotina. Há também o tio, interpretado pelo excelente ator Irandhir Santos, artista incompreendido e peixe fora d'água em um lugar onda as pessoas reúnem-se para assistir programas em uma única televisão comunitária. Aliás, justiça seja feita, todos os atores desse filme atuam com primor.

As histórias vão acontecendo simultaneamente em três fragmentos - Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu - e, enquanto isso vamos navegando pela tela. A começar, pela fotografia, extremamente rebuscada e bem feita, dirigida por Beto Martins. Em entrevista, o diretor Camilo Cavalcante disse que inspirou-se em Caravaggio ( influência perceptível no jogo marcante de luz e sombra) e no Barroco. Afora isso, penso que essa fotografia, seus tons terrosos que aparecem em enquadramentos do local, exalta a beleza do sertão. O sertão que está ali é o mesmo sertão triste e melancólico de Glauber Rocha, mas que tem seus traços de beleza e poesia, seja no vento, na linda música que sai da sanfona do sanfoneiro que quer conquistar a viúva, na terra ou na fala tão simples e tão sábia desses personagens. Algo universal então, o sertão, afinal, todo lugar, todo ser humano tem sua luz e sua sombra.

As sombras revelam-se calmamente ao longo do filme. Aliás, o tempo é algo muito particular em " A História da Eternidade". Tudo acontece passo a passo ( não é uma metrópole o pano de fundo, afinal), mas sem uma parada excessiva, como se nada acontecesse por ali. E muito acontece: relações incestuosas, incompreensão, amor, esperança; é o homem sendo homem, ali está sua essência mesmo quando tão primitiva. E, o que é o homem, se não um ser primitivo tentando sobreviver nessa selva de perigos?

Poderia passar um bom tempo falando em outros aspectos importantes da história e das histórias, mas duas cenas me deixaram tão profundamente impactadas que não sabia o que fazer, se chorava,  gritava, saía correndo dali, fazia uma performance. As duas ocasiões tiveram presença do Irandhir ( esse cara é foda! vamos continuar prestando atenção!). Na primeira, ele leva um amplificador e um vinil de Secos & Molhados para fora de casa, junto com uma espécie de manto artesanal. A cena é linda, maravilhosa, dá orgulho ser brasileira com um cinema desse: o artista, seu Joãzinho, faz uma performance com a música, a câmera em travelling circular, as pessoas não entendo nada, observando aquilo como se a profecia de Antônio Conselheiro estivesse  se materializando diante de alguns poucos escolhidos, o sertão virando mar e o mar virando sertão. E o artista? O artista ali, sendo, com toda a sua essência e felicidade, fazendo o que ele sabe fazer. O mundo poderia acabar ali amigos, e estaríamos todos dançando ao som de Secos & Molhados. A cena dois seguiu a mesma sequência de dúvida em relação à reação, mas nela eu simplesmente chorei: Joãozinho leva Afonsina para ver o mar. O mar no sertão? Pede que ela feche os olhos e a guia até chegar no mar, tudo com a imaginação. Afonsina não só vê, escuta, como guarda a lição: sempre que quisesse ver o mar, era só fechar os olhos, ele estaria dentro dela.

Agora que eu finalizei o que poderia dizer em coisas dizíveis, meu barco segue navegando pelo meu mar adentro. E levo comigo a voz de Ney Matogrosso: Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto...


 

Posted on March 16, 2015 .

O Irmão do Irmão Alemão

Parece que já envelheci desde que li o último romance do Chico Buarque, " O Irmão Alemão". Já me demiti, já catei as malas e fui pra longe daqui, já voltei, já fiquei tranquila, já recusei oferta de emprego em empresa. ( Me desculpe, mas o foco agora é minha carreira de escritora. Faz cara de séria, mas por dentro infinitos balões cor de rosa - que libertador é por pra fora cada letrinha dessa fala!). Sim, já dei mais alguns passinhos em direção a minha verdadeira essência desde a última linha que li do romance, mas parece que deixei esse texto para trás.

Esse texto, que não quer ser deixado para trás, salta dentro de mim cada dia que eu sento no computador pra escrever algumas linhas novas. Qual o assunto de hoje? E ele levanta a mão. Aham Chico, senta lá, vai pro fim da fila que tô com preguiça de tecer elogios para suas belas palavras. ( Mas que saco! Além de um compositor brilhante, ele que ser um romancista que me pega de jeito!!).

Bom, chegou a hora então, cansei de discutir com o meu alter ego. Acontece que o Chico realmente sabe que a poesia é simples! E ele faz isso não só sendo econômico mas essencial em letras de músicas, como dizendo o extraordinário em histórias que por convenção de estilo demandam mais linhas. ( Ah, só pra falar que eu não vou gastar parágrafos e parágrafos descrevendo o que se passa no livro, deu em todos os jornais: menino descobre um irmão alemão em uma correspondência antiga do seu pai. E o tal do menino na verdade é o Chico Buarque, mas nessa história não.)

Agora, pensando bem, só tem uma coisa a respeito desse livro que desejo falar através de palavras minhas. Nesse texto que vos escrevo com muito amor, eu queria colocar a lupa em um aspecto que muito me chamou a atenção durante a leitura: nesse romance há um romance dentro do romance. Vejam nesse trecho:´" Mas depois do casamento, assim que começou a pôr ordem na casa, com certeza descobriu vestígios de Anne na casa. Cartas de Anne saltariam dos bolsos de um sobretudo, jazeriam nos cantos do escritório, cairiam dos livros que ela espanava." ( No caso, Anne é a mãe do irmão Alemão e o "ela" em questão a esposa do Sérgio Buarque).

Conforme vai procurando pistas de seu irmão, o irmão do irmão Alemão passa a imaginar  histórias que teriam acontecido com seu irmão. Acredito que em dado momento a questão não era mais o encontro, mas essa busca. Ou, quem sabe, a história inventada ajudasse a ocupar a ausência que o irmão desconhecido já causava. Penso o que faria esse personagem se encontrasse seu irmão. Penso o que faria Chico Buarque, caso encontrasse Sérgio Ernst ainda vivo: do que teriam falado? seriam amigos? dividiriam horas de poesia? veriam no outro aquilo que não foram mas desejam ser?

Só sei que nada sei. No meu próprio romance dentro de " O Irmão Alemão" fica que a vida precisa de uma história inventada, algumas linhas com clímax, virada, romance - sabe, contar uma historinha que não aconteceu de vez em quando? A nossa vida é uma história inventada por nós. Qual linha você escreveu hoje?
 

Posted on March 5, 2015 .

Eu era o enigma, uma interrogação..

Eu fui dormir decidida a não escrever sobre isso. Eu acordei fingindo que o texto não estava ali, bem na minha frente. Tentei ignorar por um bom tempo, até sentar para escrever. Entendi que se eu não escrevesse esse texto que já está escrito dentro de mim, vou ser assombrada por ele um bom tempo - criatura maior que criador. Fiquei até em dúvida onde colocar o texto aqui no Outro Lado da Rua: no meio da rua ( crônica) ou esquina, visto que foi um documentário que me instigou a escrever? Fiz uni-duni-tê e caiu aqui mesmo, então dei chance ao acaso.

"Você pode até achar que me conhece, por me ver por aí, ser meu amigo, até ter transado comigo. Mas você se surpreenderá quando me ouvir cantar". Essa era a Cássia Eller. Essa é a Cássia Eller. Sempre que vejo um documentário sobre alguém que já morreu, sinto falta da pessoa na Terra - assisti ao documentário " O engenho de Zé Lins" do Vladimir de Carvalho sobre o autor paraibano de "O Menina do Engenho", e me transportei para a vida no sertão, já queria ser amiga íntima dele, saber todos os segredos que um escritor nos permite acessar ( os outros escondem-se no seu próprio texto). Mas, da Cássia Eller eu realmente senti falta.

É muito clichê, e isso é dito no documentário " Cássia Eller" de Paulo Henrique Fontanelle, mas a Cássia era uma força da natureza. Uma força da natureza que talvez tenha sido atropelada pela sua própria força. Perceber seu incômodo ao dar entrevista, estar diante das câmeras me fez admirá-la ainda mais. Era nítido o que ela tinha que superar todos os dias para fazer o que ela ama, para dar sentido ao que seria a Cássia, que era estar no palco cantando. Você só a conhecia se a visse cantando, e a nossa sociedade obcecada por fama e celebridade muitas vezes não a deixava cantar. Claro, claro, esse é o preço- muitos dizem- ou ela quis isso - outros vão se justificar. Penso quantos artistas estão nessa situação... sim, claro, não vamos negar que o ego é uma das partes mais poderosas do ser humano, e o desejo de sucesso profissional é algo que praticamente já vem de fábrica, mas tenho certeza que a criação é maior que tudo isso.. Quando você tem algo para dizer  ao mundo, isso precisa ser dito, ou as suas palavras ( ou a forma que esse algo se manifestar)  irão te sufocar. E você leitor, já botou pra fora o que necessita hoje?

Não foi propriamente o documentário que me encantou e me fez escrever. Foi ela própria: a Cássia, sua atitude, o que ela tinha pra me dizer. A Cássia cantando Eu sou Neguinha do Caetano, cantando Edith Piaf e Nirvana. A Cássia virando esse mundo de cabeça pra baixo e nos levando junto. A Cássia que vive eternamente - porque ela vai levar séculos para ser decifrada, todos os segredos dela ainda não foram desvendados.

Você pode achar que me conhece. Mas você se surpreenderá quando ler minhas palavras.


 

Posted on February 23, 2015 .

O que você faria se...

 E se no seu trabalho pedissem para você decidir em relação ao afastamento de uma funcionária? E se o afastamento dessa funcionária significasse você ganhar um bônus de um belo valor? E se a demissão dessa funcionária custasse a casa dela ( uma vez que ela não teria mais como sustentar)? E se ganhar o bônus aliviasse você de uma dívida que você carrega há um bom tempo?

Assistindo ao filme " Dois Dias, Uma Noite" de Jean- Pierre e Luc Dardenne, tentei não escorregar na tentação de me colocar na dualidade moral do bem e do mal. Quer dizer, no começo era uma tentação (será o costume?), ao longo do filme não havia mais essa possibilidade. Não havia bem e mal ali, como talvez raras vezes haja na vida. Só para nos situarmos: Sandra ( Marion Cotillard) é uma operária afastada do trabalho por  motivos de saúde. Com a promessa de um bônus de 1000 euros, seus companheiros de trabalho decidem por seu afastamento - era um ou outro. Quando ciente da situação, Sandra convence o chefe da fábrica a dar mais uma chance para votação. No entanto, ela teria que convencer os outros funcionários a abrirem mão do bônus para ela ficar. O que você faria?

O filme flui a partir das conversas que Sandra deveria orquestrar para conseguir sua permanência no emprego. E como convencer os outros que você merece o que você nem acha que merece? Como levantar da cama, se a sua vida passou a ser uma cara afundada no travesseiro - ah sim, faltou um detalhe, ela estava sofrendo de depressão na época. O maior motivador dessa saga era o marido, ele conseguia tirar da Sandra em momentos clímax algo que estava ali, mas que ela não conseguia mais encontrar na imensidão de seu mundo.

No começo, as conversas eram muito desconfortáveis - eu sentia o cheiro do desconforto saindo da tela. Como não se identificar e não querer abaixar a cabeça para evitar olhar o que estava passando bem na sua frente? A Sandra, ou a Marion no caso, me transportou para momentos da minha vida em que eu odiava estar onde eu estava, mas não havia como fugir. E também, como não entender aqueles que estavam do outro lado?

Os pequenos diálogos e situações com os outros colegas são muito interessantes- há algo de notável ali. São situações do dia-a-dia que enfrentamos sendo Sandra, Marion ou Anna. Havia aqueles que votariam para ela ficar por pena, ou mais: pena e culpa. Você sabe, vê na cara, que a pessoa não tomou a decisão porque considerava realmente ser a certa. Não, era mais estar frente a frente com ela e se sentir culpado por prejudicar alguém. Bom, eu não sei vocês, mas alguns momentos de ações motivadas por culpa começaram a voar pela minha cabeça. Pois é, melhor seguir com o filme caro leitor..

E os colegas de trabalho que se recusavam a abrir mão do bônus? Não, você não vai ficar com raiva deles e torcer para que eles se ferrem no final ( atenção: isso não é uma novela da Rede Globo de Televisão ). Nesses casos havia literalmente uma separação na tela, os cineastas realizavam o enquadramento de tal forma que poderíamos pensar estar diante de duas telas diferentes. Afinal, quando você tem seus próprios problemas, é melhor não estabelecer uma conexão com o outro. Tendemos a não acreditar na humanidade, mas a  compaixão é um sentimento muito forte e inerente, especialmente quando os problemas são parecidos ( é mais fácil um operário se colocar no lugar do outro operário, do que o chefe no lugar do empregado). No caso do filme, melhor eu manter o meu bônus necessário ( e merecido, por quê não?) do que me compadecer pela Sandra que nem trabalhando mais estava.

Ao longo das conversas Sandra parece reestabelecer e acreditar na força que ela não sabia mais que tinha. A questão não era mais convencer um operário a mais ( e essa nunca foi a questão, especialmente não pelos motivos errados), mas continuar seguindo. Por mais clichê que seja, pela vida sempre vamos encontrar chefes de fábrica, Sandra e colegas operários. E o que você vai fazer? Chorar o dia inteiro no travesseiro ( de maquiagem preferencialmente, para que o mundo inteiro possa ver o quanto você sofre) ou seguir? Sempre que estou no meus momentos Maria do Bairro encontro a minha virada de jornada do herói: o melhor não é o destino, mas o caminho.

Enfim, sei que não explorei todas as nuances desse belo filme, e fiquei muito mais presa na minha relação filme - espectador do que nos aspectos cinematográficos ( para isso, tenho a certeza de ter por aí um texto brilhante do Inácio Araújo). Mas um bom filme - ou obra de arte- é isso. Nunca se esgota.
 

Posted on February 19, 2015 .

Caetanear

A poética de Caetano é algo que me intriga, me fascina. Ele já bem disse:

 "Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso 

(E, sem dúvida, sobretudo o verso) 

É o que pode lançar mundos no mundo."

Os versos de Caetano lançam mundos no meu mundo.

Acho que poderia passar a vida escrevendo dissertações sobre o tema e, certamente, cada vez que finalizasse a retórica (a minha que é escrita), me considerando já uma especialista no Caetanês - e, consequentemente, na vida- despencaria do alto da arrogante montanha da sabedoria,  explodindo meu universo para total expansão.

Você pode odiar Caetano, considerá-lo insuportavelmente insuportável, lelé da cuca. Tudo bem, posso compreender. Mas é impossível suas vísceras não sacudirem terremoticamente ( neologismo ou pleonasmo?) após deparar-se com esse furacão. Te garanto que não será a mais leve escala, e, veja bem, tudo ótimo assim,  porque a vida só é boa nível 9 escala Richter!

Tudo bem, tudo bem, vou parar a rasgação de elogios que já está ficando cansativo. Mas, adianto-me na explicação. Amo as palavras, isso está bem esclarecido já. Eis então tudo explicado: por amar as palavras, cada vez em maior intensidade reparo nelas. E nessa obsessão, Caetano tornou-se uma das mais ricas fontes. Afinal, tão simples, tão belo e tantos significados abarcados quando ele entoa:

"A Bahia,
Estação primeira do Brasil
Ao ver a Mangueira nela inteira se viu,
Exibiu-se sua face verdadeira. "

E quando ele estabelece uma relação tão inexorável substantivo- adjetivo? Triste Bahia é  entranhadamente dessemelhante.

Ainda bem que ele está cada vez mais produtivo e esbanjando vivacidade aos 72 anos. Nós brasileiros precisamos dessa eterna dialética construção-desconstrução que ele nos propõe.  Afinal, ainda estamos a descobrir a que se destina existir. 

Ps: O Outro Lado da rua está no Facebook também =) 

Posted on September 11, 2014 .

O Grande Hotel Budapeste

A história só existe através da memória. Sendo algo tão emocional e particular como é o mundo de cada pessoa, como não imaginar que a história da humanidade é contada em um grande romance com milhares de capítulos? Será que o "cortem as cabeças do rei e a rainha"  na Revolução Francesa não foi um Alice no País das Maravilhas ao contrário?

" O Grande Hotel Budapeste", longa do diretor americano Wes Anderson, é um emaranhado de memórias. A história principal se passa dentro de uma história, que está dentro de uma segunda história e, por sua vez, encontra-se dentro de outra história. Me lembrou " O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder, e já capta a atenção por instigar a minha imaginação.

Começa assim: uma menina lendo um livro narrado pelo já mais velho escritor ( Tom Wikinson). Este conta a história de quando, ainda jovem, foi ao " Grande Hotel Budapeste" (nota pessoal: o hotel não fica em Budapeste, mas na Europa, em Lutz, se não falha a memória- o mistério de Budapeste dentro da gélida Europa) e conhece o dono ( F. murray Abraham) do lugar em ruínas que outrora carregara glórias. Ele conta ao escritor como tornou-se o proprietário, fato que começa quando era apenas um "lobby boy" e aprendiz do lendário concierge M. Gustave, interpretado por Ralph Fiennes.

Nesse momento que a magia começa, pois a história contada através das memórias de um menino só pode ser povoada pelo lindo olhar das crianças (Amarcord está ai para provar que a imaginação infantil pode ser carregada de beleza). Nada mais consoante com o belo mundo colorido do Grande Hotel criado por Anderson. E nisso, o diretor traz também o mundo da literatura: nada mais literatura do que cada narrador contar a partir da sua forma própria de narrar. Afinal, ele também um personagem, mas menos decifrável.

Apresentados os personagens, a narrativa avança para os acontecimentos: uma das senhoras que Monsieur Gustave atendia com demasiada atenção falece de maneira suspeita, deixando um quadro valiosíssimo de herança para o concierge. Seus filhos (principalmente o filho, interpretado por Adrien Brody) não aceitam que essa fortuna fique longe da família e acusam o concierge de assassinato. Gustave acaba preso e tendo que planejar sua fuga da prisão com amigos com modos bem diferentes dos seus.

A história continua como uma grande aventura vivida pelas maravilhosas mentes das crianças. O mundo só fica hostil quando entra o triste cenário da guerra. Zero (como era conhecido o " Lobby Boy"), ele próprio um imigrante e perseguido pela polícia, sabe que M. Gustave não poderia sobreviver em um mundo assim, a delicadeza e o olhar para o outro não têm vez em um mundo de carnificinas.  

Ao final do relato, o escritor quer entender por quê o outrora " Lobby Boy" deseja manter este hotel em ruínas. Como um bom escritor, ele ambiciona conhecer as nuances de seu personagem, ao mesmo tempo que Anderson brinca com a inversão de papéis transformando o então narrador em personagem principal. O escritor imagina que a resposta reside no fato de existir uma necessidade secreta de manter o mundo de M. Gustave intacto. Engana-se, viveu no hotel lindos momentos com Ágatha, sua mulher e que o acompanhou durante as aventuras narradas. A boa história surpreende o leitor.

Encerro por aqui meu conjunto de notas, sabendo que deixei pelo ar diversas facetas desta narrativa. Fico conformada, pois assim mesmo é a literatura: uma chave que abre diversos cadeados, mas que é preciso descobrir o código secreto de cada um. Esses foram os meus cadeados abertos, quais serão os seus? 

Ps 1: esse filme é baseado nas histórias do escritor austríaco Stefan Zweig, que chegou a morar no Brasil e escrever sobre nosso país, falecendo em Petrópolis.

Ps 2: Agora tem Outro lado da Rua no Facebook

Posted on July 13, 2014 .

Notas sobre Dominguinhos

Como um ser vivo pode brotar de um chão mineral? Penso em João Cabral ao assistir o documentário de Dominguinhos, dirigido por Mariana Aydar, Eduardo Nazarian e Joaquim Castro. Como tanta poesia pode sair do chão mineral do sertão? Luiz Gonzaga e Dominguinhos só poderiam ser cactos que colocaram a raiz e a essência nesse chão. 

Conhecemos a história de Dominguinhos através de sua própria voz. Sonhamos a história do sanfoneiro através das belas imagens do sertão. Como não ser transportado até o indizível que só a bela música sabe alcançar quando, na tela, sertanejos bailam com seus cavalos como que acompanhando o ritmo da sanfona?

O baião é a voz dessa terra, carrega a beleza e a tristeza do sertão, caminham lado a lado. Na própria figura de Dominguinhos há essa beleza melancólica: sua voz, seu sorriso e seu olhar carregam algo que só o sertanejo sabe. Luiz Gonzaga, seu mentor, também sabe, ele que começou a entender. E por isso, se é o Rei do Baião, ele se benzeu com sua coroa de espinhos, sentindo rasgar a pele: " se eu mereci minha coroa de rei, esta sempre eu honrei, foi a minha obrigação".

Começo falando do documentário, e termino falando da hora do adeus, do sertão, poesia. Peço desculpas, acho que não me faço entender. Mas, eu também não entendo, a beleza é um mistério. De tudo que resta, apenas dúvidas. Como conviver com esse belo tão rústico?

Posted on July 7, 2014 .

Ivan vê a Copa

Leio "Garotos da Fuzarca" e tomo nota: o " Bananão" não está preparado para Ivan Lessa. Será que algum dia estará? ( Aliás, como não ter uma paixão fulminante, cumplicidade instantânea, por um livrinho com o título de "Garotos da Fuzarca"? A turma toda de Ipanema ri com olhos infantis e sagazes).

Ivan Lessa é voraz, não tem piedade: tanto daqueles que critica quanto do seu leitor. Não gostou? Vai ler outra coisa que seja mais satisfatório ao paladar provinciano. Aqui não há formalismos de levar o leitor pela mão. É para ser tratado como gente grande.

O escritor trata todo mundo como gente grande, inclusive seus personagens. Algo que só um habilidoso observador consegue: dar a verdadeira voz do personagem. Cada conto é imersão em um diferente (diferente?) universo. Vejamos o caso de "Boneca ao Relento". Como não imaginar a mocinha saltitando de felicidade quando o amado a pede em casamento e ela profere em alto e bom tom "Sim! Sim! Sim! Mil vezes sim! Claro que eu aceitava ser sua esposa."? É eterno, da ditadura militar para o próximo milênio.

E o desfecho dessa inocente moça? Só queria manter sua vidinha, tudo que ela fez foi só por isso! Ela é que vive em um mundo sujo, tudo é sujo, ela só queria manter sua situação social. E, como uma boa heroína, ela se revolta contra a podridão do mundo e vai salvar sua alma ( do resto do mundo viu? Ela já é uma alma de Deus).

Parafraseando Ivan Lessa: foi no tempo do Garotão. Não não, é mais doutoral o negócio. Fala para o povo. Foi esses dias mesmo, na abertura da Copa. Gozado. Conheço essa moça de algum lugar.

Posted on June 23, 2014 .