O Grande Hotel Budapeste

A história só existe através da memória. Sendo algo tão emocional e particular como é o mundo de cada pessoa, como não imaginar que a história da humanidade é contada em um grande romance com milhares de capítulos? Será que o "cortem as cabeças do rei e a rainha"  na Revolução Francesa não foi um Alice no País das Maravilhas ao contrário?

" O Grande Hotel Budapeste", longa do diretor americano Wes Anderson, é um emaranhado de memórias. A história principal se passa dentro de uma história, que está dentro de uma segunda história e, por sua vez, encontra-se dentro de outra história. Me lembrou " O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder, e já capta a atenção por instigar a minha imaginação.

Começa assim: uma menina lendo um livro narrado pelo já mais velho escritor ( Tom Wikinson). Este conta a história de quando, ainda jovem, foi ao " Grande Hotel Budapeste" (nota pessoal: o hotel não fica em Budapeste, mas na Europa, em Lutz, se não falha a memória- o mistério de Budapeste dentro da gélida Europa) e conhece o dono ( F. murray Abraham) do lugar em ruínas que outrora carregara glórias. Ele conta ao escritor como tornou-se o proprietário, fato que começa quando era apenas um "lobby boy" e aprendiz do lendário concierge M. Gustave, interpretado por Ralph Fiennes.

Nesse momento que a magia começa, pois a história contada através das memórias de um menino só pode ser povoada pelo lindo olhar das crianças (Amarcord está ai para provar que a imaginação infantil pode ser carregada de beleza). Nada mais consoante com o belo mundo colorido do Grande Hotel criado por Anderson. E nisso, o diretor traz também o mundo da literatura: nada mais literatura do que cada narrador contar a partir da sua forma própria de narrar. Afinal, ele também um personagem, mas menos decifrável.

Apresentados os personagens, a narrativa avança para os acontecimentos: uma das senhoras que Monsieur Gustave atendia com demasiada atenção falece de maneira suspeita, deixando um quadro valiosíssimo de herança para o concierge. Seus filhos (principalmente o filho, interpretado por Adrien Brody) não aceitam que essa fortuna fique longe da família e acusam o concierge de assassinato. Gustave acaba preso e tendo que planejar sua fuga da prisão com amigos com modos bem diferentes dos seus.

A história continua como uma grande aventura vivida pelas maravilhosas mentes das crianças. O mundo só fica hostil quando entra o triste cenário da guerra. Zero (como era conhecido o " Lobby Boy"), ele próprio um imigrante e perseguido pela polícia, sabe que M. Gustave não poderia sobreviver em um mundo assim, a delicadeza e o olhar para o outro não têm vez em um mundo de carnificinas.  

Ao final do relato, o escritor quer entender por quê o outrora " Lobby Boy" deseja manter este hotel em ruínas. Como um bom escritor, ele ambiciona conhecer as nuances de seu personagem, ao mesmo tempo que Anderson brinca com a inversão de papéis transformando o então narrador em personagem principal. O escritor imagina que a resposta reside no fato de existir uma necessidade secreta de manter o mundo de M. Gustave intacto. Engana-se, viveu no hotel lindos momentos com Ágatha, sua mulher e que o acompanhou durante as aventuras narradas. A boa história surpreende o leitor.

Encerro por aqui meu conjunto de notas, sabendo que deixei pelo ar diversas facetas desta narrativa. Fico conformada, pois assim mesmo é a literatura: uma chave que abre diversos cadeados, mas que é preciso descobrir o código secreto de cada um. Esses foram os meus cadeados abertos, quais serão os seus? 

Ps 1: esse filme é baseado nas histórias do escritor austríaco Stefan Zweig, que chegou a morar no Brasil e escrever sobre nosso país, falecendo em Petrópolis.

Ps 2: Agora tem Outro lado da Rua no Facebook

Posted on July 13, 2014 .