Notas sobre Dominguinhos

Como um ser vivo pode brotar de um chão mineral? Penso em João Cabral ao assistir o documentário de Dominguinhos, dirigido por Mariana Aydar, Eduardo Nazarian e Joaquim Castro. Como tanta poesia pode sair do chão mineral do sertão? Luiz Gonzaga e Dominguinhos só poderiam ser cactos que colocaram a raiz e a essência nesse chão. 

Conhecemos a história de Dominguinhos através de sua própria voz. Sonhamos a história do sanfoneiro através das belas imagens do sertão. Como não ser transportado até o indizível que só a bela música sabe alcançar quando, na tela, sertanejos bailam com seus cavalos como que acompanhando o ritmo da sanfona?

O baião é a voz dessa terra, carrega a beleza e a tristeza do sertão, caminham lado a lado. Na própria figura de Dominguinhos há essa beleza melancólica: sua voz, seu sorriso e seu olhar carregam algo que só o sertanejo sabe. Luiz Gonzaga, seu mentor, também sabe, ele que começou a entender. E por isso, se é o Rei do Baião, ele se benzeu com sua coroa de espinhos, sentindo rasgar a pele: " se eu mereci minha coroa de rei, esta sempre eu honrei, foi a minha obrigação".

Começo falando do documentário, e termino falando da hora do adeus, do sertão, poesia. Peço desculpas, acho que não me faço entender. Mas, eu também não entendo, a beleza é um mistério. De tudo que resta, apenas dúvidas. Como conviver com esse belo tão rústico?

Posted on July 7, 2014 .