O que você faria se...

 E se no seu trabalho pedissem para você decidir em relação ao afastamento de uma funcionária? E se o afastamento dessa funcionária significasse você ganhar um bônus de um belo valor? E se a demissão dessa funcionária custasse a casa dela ( uma vez que ela não teria mais como sustentar)? E se ganhar o bônus aliviasse você de uma dívida que você carrega há um bom tempo?

Assistindo ao filme " Dois Dias, Uma Noite" de Jean- Pierre e Luc Dardenne, tentei não escorregar na tentação de me colocar na dualidade moral do bem e do mal. Quer dizer, no começo era uma tentação (será o costume?), ao longo do filme não havia mais essa possibilidade. Não havia bem e mal ali, como talvez raras vezes haja na vida. Só para nos situarmos: Sandra ( Marion Cotillard) é uma operária afastada do trabalho por  motivos de saúde. Com a promessa de um bônus de 1000 euros, seus companheiros de trabalho decidem por seu afastamento - era um ou outro. Quando ciente da situação, Sandra convence o chefe da fábrica a dar mais uma chance para votação. No entanto, ela teria que convencer os outros funcionários a abrirem mão do bônus para ela ficar. O que você faria?

O filme flui a partir das conversas que Sandra deveria orquestrar para conseguir sua permanência no emprego. E como convencer os outros que você merece o que você nem acha que merece? Como levantar da cama, se a sua vida passou a ser uma cara afundada no travesseiro - ah sim, faltou um detalhe, ela estava sofrendo de depressão na época. O maior motivador dessa saga era o marido, ele conseguia tirar da Sandra em momentos clímax algo que estava ali, mas que ela não conseguia mais encontrar na imensidão de seu mundo.

No começo, as conversas eram muito desconfortáveis - eu sentia o cheiro do desconforto saindo da tela. Como não se identificar e não querer abaixar a cabeça para evitar olhar o que estava passando bem na sua frente? A Sandra, ou a Marion no caso, me transportou para momentos da minha vida em que eu odiava estar onde eu estava, mas não havia como fugir. E também, como não entender aqueles que estavam do outro lado?

Os pequenos diálogos e situações com os outros colegas são muito interessantes- há algo de notável ali. São situações do dia-a-dia que enfrentamos sendo Sandra, Marion ou Anna. Havia aqueles que votariam para ela ficar por pena, ou mais: pena e culpa. Você sabe, vê na cara, que a pessoa não tomou a decisão porque considerava realmente ser a certa. Não, era mais estar frente a frente com ela e se sentir culpado por prejudicar alguém. Bom, eu não sei vocês, mas alguns momentos de ações motivadas por culpa começaram a voar pela minha cabeça. Pois é, melhor seguir com o filme caro leitor..

E os colegas de trabalho que se recusavam a abrir mão do bônus? Não, você não vai ficar com raiva deles e torcer para que eles se ferrem no final ( atenção: isso não é uma novela da Rede Globo de Televisão ). Nesses casos havia literalmente uma separação na tela, os cineastas realizavam o enquadramento de tal forma que poderíamos pensar estar diante de duas telas diferentes. Afinal, quando você tem seus próprios problemas, é melhor não estabelecer uma conexão com o outro. Tendemos a não acreditar na humanidade, mas a  compaixão é um sentimento muito forte e inerente, especialmente quando os problemas são parecidos ( é mais fácil um operário se colocar no lugar do outro operário, do que o chefe no lugar do empregado). No caso do filme, melhor eu manter o meu bônus necessário ( e merecido, por quê não?) do que me compadecer pela Sandra que nem trabalhando mais estava.

Ao longo das conversas Sandra parece reestabelecer e acreditar na força que ela não sabia mais que tinha. A questão não era mais convencer um operário a mais ( e essa nunca foi a questão, especialmente não pelos motivos errados), mas continuar seguindo. Por mais clichê que seja, pela vida sempre vamos encontrar chefes de fábrica, Sandra e colegas operários. E o que você vai fazer? Chorar o dia inteiro no travesseiro ( de maquiagem preferencialmente, para que o mundo inteiro possa ver o quanto você sofre) ou seguir? Sempre que estou no meus momentos Maria do Bairro encontro a minha virada de jornada do herói: o melhor não é o destino, mas o caminho.

Enfim, sei que não explorei todas as nuances desse belo filme, e fiquei muito mais presa na minha relação filme - espectador do que nos aspectos cinematográficos ( para isso, tenho a certeza de ter por aí um texto brilhante do Inácio Araújo). Mas um bom filme - ou obra de arte- é isso. Nunca se esgota.
 

Posted on February 19, 2015 .