Eu era o enigma, uma interrogação..

Eu fui dormir decidida a não escrever sobre isso. Eu acordei fingindo que o texto não estava ali, bem na minha frente. Tentei ignorar por um bom tempo, até sentar para escrever. Entendi que se eu não escrevesse esse texto que já está escrito dentro de mim, vou ser assombrada por ele um bom tempo - criatura maior que criador. Fiquei até em dúvida onde colocar o texto aqui no Outro Lado da Rua: no meio da rua ( crônica) ou esquina, visto que foi um documentário que me instigou a escrever? Fiz uni-duni-tê e caiu aqui mesmo, então dei chance ao acaso.

"Você pode até achar que me conhece, por me ver por aí, ser meu amigo, até ter transado comigo. Mas você se surpreenderá quando me ouvir cantar". Essa era a Cássia Eller. Essa é a Cássia Eller. Sempre que vejo um documentário sobre alguém que já morreu, sinto falta da pessoa na Terra - assisti ao documentário " O engenho de Zé Lins" do Vladimir de Carvalho sobre o autor paraibano de "O Menina do Engenho", e me transportei para a vida no sertão, já queria ser amiga íntima dele, saber todos os segredos que um escritor nos permite acessar ( os outros escondem-se no seu próprio texto). Mas, da Cássia Eller eu realmente senti falta.

É muito clichê, e isso é dito no documentário " Cássia Eller" de Paulo Henrique Fontanelle, mas a Cássia era uma força da natureza. Uma força da natureza que talvez tenha sido atropelada pela sua própria força. Perceber seu incômodo ao dar entrevista, estar diante das câmeras me fez admirá-la ainda mais. Era nítido o que ela tinha que superar todos os dias para fazer o que ela ama, para dar sentido ao que seria a Cássia, que era estar no palco cantando. Você só a conhecia se a visse cantando, e a nossa sociedade obcecada por fama e celebridade muitas vezes não a deixava cantar. Claro, claro, esse é o preço- muitos dizem- ou ela quis isso - outros vão se justificar. Penso quantos artistas estão nessa situação... sim, claro, não vamos negar que o ego é uma das partes mais poderosas do ser humano, e o desejo de sucesso profissional é algo que praticamente já vem de fábrica, mas tenho certeza que a criação é maior que tudo isso.. Quando você tem algo para dizer  ao mundo, isso precisa ser dito, ou as suas palavras ( ou a forma que esse algo se manifestar)  irão te sufocar. E você leitor, já botou pra fora o que necessita hoje?

Não foi propriamente o documentário que me encantou e me fez escrever. Foi ela própria: a Cássia, sua atitude, o que ela tinha pra me dizer. A Cássia cantando Eu sou Neguinha do Caetano, cantando Edith Piaf e Nirvana. A Cássia virando esse mundo de cabeça pra baixo e nos levando junto. A Cássia que vive eternamente - porque ela vai levar séculos para ser decifrada, todos os segredos dela ainda não foram desvendados.

Você pode achar que me conhece. Mas você se surpreenderá quando ler minhas palavras.


 

Posted on February 23, 2015 .