O Alívio da Eternidade

Ontem muito aconteceu. A Guerra Fria permanece e vamos construindo, tijolo a tijolo, nossa própria versão do Muro de Berlin. Quem sabe, podemos até ganhar uma obra do Banksy nesse muro, para passarmos em frente durante a rotina massacrante, fingindo que não enxergamos nada, continuando assim nas nossas confortáveis ideologias, na confortável cadeira daquele tudo sabe. Melhor perder o amiguinho, perder o país, importante mesmo é estar sempre certo. Digo, lutar por um país melhor!

Mas, falando em Banksy, falando em arte, o que mais me impactou ontem foi justamente a arte! Ela, a minha forma de comunicar com o mundo, de me expressar, de fazer o meu coração seguir na cadência do ritmo e tocar algo que ainda faça sentido. Assistir ao primeiro longa do pernambucano Camilo Cavalcante, " A História da Eternidade", foi como um suspiro de alívio, algo como sentir que ainda estava viva ( viva o cinema pernambucano que vem fazendo o Brasil sentir-se vivo!!).

Ainda não consegui digerir esse filme e, certamente, não conseguirei enumerar aqui todos os aspectos cinematográficos ou de qualquer outro tipo dessa obra. Mas, pensando bem, a intenção não é fechar, finalizar, eu quero lançar minhas palavras para o espaço e fazer com que elas se propaguem, nasçam, renasçam e voltem a mim trazendo novos significados. Bom, mas voltando do céu para a arte ( e não seria o mesmo?), o filme se passa em uma minúscula comunidade do sertão e três histórias vão correndo no fluir da vida: uma senhora beata que espera a chegada do neto de São Paulo, uma menina, que sonha em ver o mar e uma viúva que está com medo do sentir.

Além das personagens femininas fortes, há os homens, como não poderia deixar de ser em uma sociedade em que a estrutura patriarcal ainda é muito evidente. Afonsina, a menina que queria conhecer o mar, vive para servir ao pai, um homem bruto e que não enxerga nada além de sua rotina. Há também o tio, interpretado pelo excelente ator Irandhir Santos, artista incompreendido e peixe fora d'água em um lugar onda as pessoas reúnem-se para assistir programas em uma única televisão comunitária. Aliás, justiça seja feita, todos os atores desse filme atuam com primor.

As histórias vão acontecendo simultaneamente em três fragmentos - Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu - e, enquanto isso vamos navegando pela tela. A começar, pela fotografia, extremamente rebuscada e bem feita, dirigida por Beto Martins. Em entrevista, o diretor Camilo Cavalcante disse que inspirou-se em Caravaggio ( influência perceptível no jogo marcante de luz e sombra) e no Barroco. Afora isso, penso que essa fotografia, seus tons terrosos que aparecem em enquadramentos do local, exalta a beleza do sertão. O sertão que está ali é o mesmo sertão triste e melancólico de Glauber Rocha, mas que tem seus traços de beleza e poesia, seja no vento, na linda música que sai da sanfona do sanfoneiro que quer conquistar a viúva, na terra ou na fala tão simples e tão sábia desses personagens. Algo universal então, o sertão, afinal, todo lugar, todo ser humano tem sua luz e sua sombra.

As sombras revelam-se calmamente ao longo do filme. Aliás, o tempo é algo muito particular em " A História da Eternidade". Tudo acontece passo a passo ( não é uma metrópole o pano de fundo, afinal), mas sem uma parada excessiva, como se nada acontecesse por ali. E muito acontece: relações incestuosas, incompreensão, amor, esperança; é o homem sendo homem, ali está sua essência mesmo quando tão primitiva. E, o que é o homem, se não um ser primitivo tentando sobreviver nessa selva de perigos?

Poderia passar um bom tempo falando em outros aspectos importantes da história e das histórias, mas duas cenas me deixaram tão profundamente impactadas que não sabia o que fazer, se chorava,  gritava, saía correndo dali, fazia uma performance. As duas ocasiões tiveram presença do Irandhir ( esse cara é foda! vamos continuar prestando atenção!). Na primeira, ele leva um amplificador e um vinil de Secos & Molhados para fora de casa, junto com uma espécie de manto artesanal. A cena é linda, maravilhosa, dá orgulho ser brasileira com um cinema desse: o artista, seu Joãzinho, faz uma performance com a música, a câmera em travelling circular, as pessoas não entendo nada, observando aquilo como se a profecia de Antônio Conselheiro estivesse  se materializando diante de alguns poucos escolhidos, o sertão virando mar e o mar virando sertão. E o artista? O artista ali, sendo, com toda a sua essência e felicidade, fazendo o que ele sabe fazer. O mundo poderia acabar ali amigos, e estaríamos todos dançando ao som de Secos & Molhados. A cena dois seguiu a mesma sequência de dúvida em relação à reação, mas nela eu simplesmente chorei: Joãozinho leva Afonsina para ver o mar. O mar no sertão? Pede que ela feche os olhos e a guia até chegar no mar, tudo com a imaginação. Afonsina não só vê, escuta, como guarda a lição: sempre que quisesse ver o mar, era só fechar os olhos, ele estaria dentro dela.

Agora que eu finalizei o que poderia dizer em coisas dizíveis, meu barco segue navegando pelo meu mar adentro. E levo comigo a voz de Ney Matogrosso: Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto...


 

Posted on March 16, 2015 .