O Irmão do Irmão Alemão

Parece que já envelheci desde que li o último romance do Chico Buarque, " O Irmão Alemão". Já me demiti, já catei as malas e fui pra longe daqui, já voltei, já fiquei tranquila, já recusei oferta de emprego em empresa. ( Me desculpe, mas o foco agora é minha carreira de escritora. Faz cara de séria, mas por dentro infinitos balões cor de rosa - que libertador é por pra fora cada letrinha dessa fala!). Sim, já dei mais alguns passinhos em direção a minha verdadeira essência desde a última linha que li do romance, mas parece que deixei esse texto para trás.

Esse texto, que não quer ser deixado para trás, salta dentro de mim cada dia que eu sento no computador pra escrever algumas linhas novas. Qual o assunto de hoje? E ele levanta a mão. Aham Chico, senta lá, vai pro fim da fila que tô com preguiça de tecer elogios para suas belas palavras. ( Mas que saco! Além de um compositor brilhante, ele que ser um romancista que me pega de jeito!!).

Bom, chegou a hora então, cansei de discutir com o meu alter ego. Acontece que o Chico realmente sabe que a poesia é simples! E ele faz isso não só sendo econômico mas essencial em letras de músicas, como dizendo o extraordinário em histórias que por convenção de estilo demandam mais linhas. ( Ah, só pra falar que eu não vou gastar parágrafos e parágrafos descrevendo o que se passa no livro, deu em todos os jornais: menino descobre um irmão alemão em uma correspondência antiga do seu pai. E o tal do menino na verdade é o Chico Buarque, mas nessa história não.)

Agora, pensando bem, só tem uma coisa a respeito desse livro que desejo falar através de palavras minhas. Nesse texto que vos escrevo com muito amor, eu queria colocar a lupa em um aspecto que muito me chamou a atenção durante a leitura: nesse romance há um romance dentro do romance. Vejam nesse trecho:´" Mas depois do casamento, assim que começou a pôr ordem na casa, com certeza descobriu vestígios de Anne na casa. Cartas de Anne saltariam dos bolsos de um sobretudo, jazeriam nos cantos do escritório, cairiam dos livros que ela espanava." ( No caso, Anne é a mãe do irmão Alemão e o "ela" em questão a esposa do Sérgio Buarque).

Conforme vai procurando pistas de seu irmão, o irmão do irmão Alemão passa a imaginar  histórias que teriam acontecido com seu irmão. Acredito que em dado momento a questão não era mais o encontro, mas essa busca. Ou, quem sabe, a história inventada ajudasse a ocupar a ausência que o irmão desconhecido já causava. Penso o que faria esse personagem se encontrasse seu irmão. Penso o que faria Chico Buarque, caso encontrasse Sérgio Ernst ainda vivo: do que teriam falado? seriam amigos? dividiriam horas de poesia? veriam no outro aquilo que não foram mas desejam ser?

Só sei que nada sei. No meu próprio romance dentro de " O Irmão Alemão" fica que a vida precisa de uma história inventada, algumas linhas com clímax, virada, romance - sabe, contar uma historinha que não aconteceu de vez em quando? A nossa vida é uma história inventada por nós. Qual linha você escreveu hoje?
 

Posted on March 5, 2015 .