O Sal da Vida

Eu sempre recorro à arte quando sinto que algo está errado,quando há um vazio tentando ser escancarado. ( Nunca entendido, acho que jamais irei comprrender tais questões, mas o que eu preciso é que o próprio vazio subentenda-se.) . E no dia que eu precisei botar o poema " Angústia" para fora, eu me deparei com " O Sal da Terra", filme sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado  dirigido pelo seu filho Juliano Salgado e (ninguém menos que) Wim Wenders.

Em um domingo quase adentrando a segunda, em uma sala das algumas do cinema do Frei Caneca,  poucas pessoas conseguiram se mexer ou esboçar qualquer reação depois do filme-  eu dentre uma delas. É difíicl construir palavras conexas sobre algo que te deixou tal marca profunda que você não consegue explicar. No entanto, farei o possível para transitar levemente pelas impressões que me  ficaram registradas.

O que falar do homem Sebastião Salgado? Um fotógrafo transformado assim, de repente, no meio de sua carreira de economista, e, acima de tudo, um homem com uma humanidade exacerbada. Sebastião olha além dos olhos, ele lança sua lente através da alma.  Mas, esse fotógrafo que enxergava o mundo também tornou-se pai, um pai muitas vezes ausente em virtude da sua missão de vida que constantemente o fazia navegar para terras longínquas de onde seu filho estaria.

Vejo, então, o filme com dois "enredos" centrados na figura de Sebastião homem/fotográfo: os caminhos que sua carreira foi se enveredando e como o seu papel de pai foi influenciado por isso. Enquanto seu filho era bem pequeno, Sebastião parte para uma de suas séries, " Outras Américas". Enquanto as fotos vão aparecendo em nossa frente, há a história de Sebastião por trás de cada imagem - cada imagem é uma história capturada. É impressionante notar a empatia que Sebastião constrói nas comunidades que visita, ele estava realmente interessado em conhecer o outro em seus mais profundos aspectos. E o resultado disso é a sua fotografia extremamente sensível.

Sua veia social começa a aparecer mais fortemente após uma viagem pelo Nordeste brasileiro, onde ele pôde encontrar toda a devastidão causada pela seca. O que mais me impactou foi a séria " Êxodos", em que ele esteve presente em algumas  das mais tristes passagens da história humana, como foi o caso da Guerra Civil de Ruanda em 1994. Sebastião pôde presenciar com a sua prórpia lente quão animalescos e desprovidos de compaixão podemos nos tornar com as crenças erradas. Em um de seus momentos mais desesperados, disse que diversas vezes deixou sua câmera de lado para chorar; e quando saiu dali estava doente na sua alma.

Quando achamos que Sebastião não mais poderia aguentar ( e nem nós espectadores, com a visão daquelas imagens lindamente horríveis) , ele decide fazer uma carta de amor ao planeta Terra, através de sua linda série  "Genesis".

Por fim ( do filme, não da história de Sebastião Salgado, para sorte do mundo), penso que como um presente de Deus por seu trabalho extraordinário de denúncia de tristes condições humanas que, como ele mesmo diz, o mundo inteiro precisava conhecer, ele retorna para sua terra natal em Minas Gerais, e diante daquelas terras, Lélia ( sua esposa e grande parceira de pesquisa e preparação dos livros e exposições) tem uma ideia maluca: por que não replantamos tudo?( Ufa, quase sem respirar para descrever a sensação do momento) O que não passava de um delírio torna-se uma mensagem de esperança para o mundo, concretizada em toda a cor verde que voltou a habitar o lugar e na criação do Instituto Terra. Ainda bem que pude suspirar ao final do filme, depois de tanto sangue derramado aos prantos.

Posted on April 7, 2015 .