Hanami, Cerejeiras em Flor

Sempre pensamos que temos tempo, sempre pensamos que temos tempo suficiente. Mas, aí, passa um dia, o outro dia, passa o almoço, o jantar e mais um café da manhã, e permanecemos nos movendo através de uma coreografia automatizada que não tem o menor movimento.

E, no entanto, a vida é efêmera, em um segundo a vida passa. A vida brota como as flores das cerejeiras: florescem e em poucos dias e logo não estão mais lá, poucos dias e se vão. E aí só no próximo ano, no outro ano, até você não estar aqui mais para praticar a contemplação da flor da cerejeira, ou hanami.

Assisti no último sábado um filme alemão belíssimo que trata justamente sobre isso: Hanami, Cerejeiras em Flor. Esse é um daqueles filmes que te golpeiam de tal forma que você fica dias com o seu pensamento orbitando em torno dele. Conta a história de um casal de meia idade que leva uma vida distante dos filhos, uma vida pacata na Baviera. A aparente tranquilidade sofre uma alteração quando Trudi descobre que o marido Rudi tem uma doença terminal e guarda o segredo para si.

O que fazer então?Teriam que fazer tudo que sonhavam, mas não haviam feito até então? Trudi convence o marido a visitar dois dos três filhos em Berlim, que não têm tempo para estar com os pais ( aqui, referência ao filme " Viagem a Toquio" de Ozu). Essa jornada começa a mostrar a diferença que pairava na família, mesmo entre Trudi e Rudi.  Trudi começa a mostrar o que escolheu abdicar: apaixonada pela cultura japonesa sonhava em ir ao Japão conhecer o Monte Fuji, e também era adepta da dança japonesa moderna butô, algo que o marido não entendia.

Após poucos dias de viagem para Berlim, decidem ir para a praia, onde acontece uma virada inesperada na história. Durante a viagem Trudi pergunta ao Rudi se ele não pensava em ter feito nada diferente na sua vida, ao que ele responde: não, iria trabalhar e retornaria para você da mesma forma. Isso que é o amor, da mesma forma que esse era o abismo entre os dois.

Trudi, então, morre repentinamente e o marido não sabe o que fazer a partir daquela nova realidade - a presença da pessoa amada e companheira de décadas é mais forte ainda em sua ausência. Rudi decide ir então para o Japão reencontrar a mulher.

Hanami é muito bem filmado e me encantei pelos detalhes que a diretora a todo o momento mostra. ( O que é a vida senão os detalhes do que vivemos?). Chega a ser angustiante o quanto Rudi perde ainda mais sua identidade: em um país que não entende nem o alfabeto, como se virar então? Acho essa uma metáfora perfeita para a perda do amor de uma vida inteira. A vida passa tão rápido e, de repente, nos vemos sem aqueles que amamos. Como pode ser possível ser indiferente a tudo isso? Como pode ser possível que tudo fique bem?

Acho incrível também quando Rudi vai em busca do Monte Fuji e o filme fica bem Ozu ( incluindo o plano de observador sentado em um tatami): e são tantos detalhes para apreciar no filme, assim como a vida no planeta! No entanto, a parte que mais me toca é quando o filho que mora no Japão pergunta o motivo de eles nunca terem ido visitá-lo: " sempre achamos que haveria tempo".

Há tempo? Não há respostas, nunca há respostas, a atitude mais eficaz ( e, obviamente, a mais clichê) é aproveitar cada segunda da vida. Assim como as flores das cerejeiras, nossa vida cai em poucos suspiros.

Posted on August 3, 2015 .