AWAKE

Quando começamos a expandir nossa consciência, mesmo que seja um pouquinho, temo ser este um caminho sem volta. Digo sem volta, pois, se você estiver comprometido mesmo com a sua evolução, há fatos que você não consegue mais ignorar. Por exemplo: você começa a ser uma pessoa menos reativa, aquelas explosões à flor da pele já não são tão frequentes. Mas, mesmo se algum dia você reagir a raiva  (por esta ser maior que você, ou por um orgulho ferido), você não vai fazer isto sem conhecimento: você vai gritar, falar palavras raivosas, fazer jogos de vitimização (atenção: trecho baseado em fatos reais, rs) e, no entanto, você saberá que você está reagindo e agindo da maneira errada.

 Ontem eu assisti ao documentário “ Awake: A Vida de Yogananda”, documentário que conta a própria vida do Yogananda. Este guru indiano é o autor da obra tão citada “ Autobiografia de um Iogue”, livro de cabeceira de gênios como Steve Jobs, George Harrison e João Gilberto. Enfim, fora o fato de ter sido algo incrível assistir este documentário, uma experiência inexplicável mesmo, fiquei com dois pontos do documentário martelando na minha cabeça. E, obviamente, não consegui viver direito enquanto não compartilhei estes sentimentos aqui com vocês.

O primeiro é que, em dado momento, fala-se que o caminho espiritual é algo extremamente difícil, pois exige que você se desfaça de muito de você. Não precisa nem ser um sábio para perceber isso no dia a dia, uma vez que somos muito apegados a nós mesmos – ou a ideia que temos de nós. Enquanto seres humanos, somos muito apegados as nossas virtudes e, o pior, aos nossos defeitos. Quantos de nós não nos apegamos ao nosso orgulho ou nossa vaidade, mesmo quando prejudicamos alguns dos relacionamentos mais importantes de nossa vida?

 Enfim, nessa questão do apego, sou uma mera mortal tentando ser uma pessoa melhor a cada dia, superando meu egoísmo e minha inveja, não sabendo o que é certo e errado de tudo isso. Só sei que tento caminhar com o coração e relativizar as minhas atitudes, para não seguir aquela razão cega. Lendo Paulo Freire, penso que gostaria muito de não sofrer do mal dos sectários, como ele coloca, visto que “.. sofrem da falta de dúvida”.

Outro pensamento que me atormenta desde ontem, ou me acalma: enquanto seres humanos não temos consciência do nosso potencial. Quando Yogananda foi para os Estados Unidos, em 1920, ele começou a disseminar uma ideia que era estranha à época, que seria o fato de termos o divino em nossa essência e, para nos relacionarmos com ele, bastaria olhar para dentro. Posso imaginar a radicalidade dessa ideia na sociedade americana da época, não só em termos de concepção de religião, mas também por ser uma sociedade que estava vivendo a segregação racial. Imagine, nesse contexto, a disseminação da ideia de que você é Deus, assim como seu “irmão”, sendo ele branco, negro, ou um swami de pele morena que anda pelas ruas com um turbante.

Se essa ideia não muda tudo, não sei o que pensar. Ainda hoje, é um pensamento radical: envolve a concepção de que temos um potencial divino em nós mesmos e que nos permite uma total expansão, além de levar o conceito de fraternidade ao seu extremo. Somos um, mas somos parte. Somos a parte do Todo Maior. Precisamos das outras partes para ser o Todo. Imagina isso...

Posted on April 4, 2016 .