A Felicidade Acaba

Em pouco mais de uma semana eu vivi momentos intensos e marcantes na minha vida: o lançamento do meu livro, a minha afirmação ( ou o começo..) ao mundo enquanto escritora e o casamento de um casal muito especial. Percebo, então, que o bom da vida está aí: nas pessoas e nos momentos que passamos juntos. Seriam estes momentos, então, a própria felicidade?

Gosto muito da frase que Chris McCandless, figura central do filme/livro “ Na Natureza Selvagem” transmite: a felicidade só é verdadeira quando compartilhada. Será que a felicidade só pode se concretizar a partir do momento em que compartilhamos com pelo menos algum outro alguém? Não sei ao certo; talvez sim, talvez não.

 Sinto que não, pois a felicidade também é esse sentimento inefável de maravilha, paz e serenidade que carregamos ( ou: é importante que seja carregado) ao longo da vida. Mas, também sinto que sim: estar com as pessoas que você ama e ter o apoio delas, aproveitar minutos que não mais se repetirão e estar no presente dão significado à existência. Afinal, a  menos que você esteja presente, a sua vida passará despercebida perante seus olhos. E repare bem nesses momentos: o sentimento é mais profundo do que quando realizamos uma compra, por exemplo.

Não sei ao certo os caminhos de minhas divagações, mas neste momento penso na inesquecível crônica “ O Amor Acaba”, de Paulo Mendes Campos, e tento brincar um pouco com a minha própria versão: “ AFelicidade Acaba”. Eis uma missão difícil, Paulo Mendes Campos, assim como Rubem Braga, é um dos grandes mestres da crônica brasileira, jamais será copiável – assim como ninguém é. Tento, então, a partir da ideia deste mestre, ingressar em meu próprio universo. Quem sabe um dia.

A Felicidade Acaba. Em um jantar, por exemplo, quando só conseguimos prestar atenção naquele vinho não tão agradável, que desce difícil, nos esquecendo daqueles que tanto nos são caros e estão ao nosso redor. O sabor amargo do vinho roubou a verdadeira intenção do encontro. A felicidade acaba, de repente, em um momento em que estamos no cinema e não sabemos qual filme assistir. Olhamos impaciente para as opções, pensamos sem vontade em todas as outras opções, para além do cinema, e nada: a inquietação já supera as possibilidades de leveza.

Em um belíssimo pôr do sol a felicidade também acaba: na mesma intensidade em que uma mágoa permanece guardada, uma discussão não resolvida e um sentimento de vingança desnecessário. Considerar o menos importante como sendo mais importante; também aí acaba. Quando as bocas não dizem o que o coração deseja, quando as mãos tremem de tensão e a explosão vem como uma necessidade de jogar tudo para o alto. Uma explosão não de amor, não de poemas que precisam ser ditos com a vontade de todos os poros, apenas a desistência. A impaciência, esta que muitas vezes achamos tão bonita de se carregar: eis aí uma outra possibilidade de término da felicidade.

A felicidade também acaba no momento em que as palavras não conseguem encontrar o texto certo. E a felicidade também acaba no tanto faz: tanto faz o que quero, tanto faz o como, o que faço. Tanto faz que os dias passem e eu nem perceba. Tanto faz que o mundo esteja um caos e eu nem olhe. Aí, a felicidade também acaba.

Posted on July 18, 2016 .