Não escondo mais o sorriso

Você se levanta.  Não muito tarde, mas também não às costumeiras sete horas da manhã. Então, um ritual de preparação para o dia tem início: tomar banho, colocar a roupa escovar os dentes e segue. De repente:  você se lembra que não tem mais um lugar específico para ir todos os dias. Ao contrário: você não precisa ir a lugar algum, sua mesa de trabalho está bem na sua frente.

Mudar não é fácil; exige dor, resistência, adaptação e transformação. Quando a mudança envolve o trabalho, algo visceralmente entranhado à nossa personalidade, o contraste é mais gritante. Aí o choque acontece mesmo.

Demorou um tempo até que eu me acostumasse ao fato de que eu não teria que me locomover para lugar algum para trabalhar. Pela manhã, eu observava diversas pessoas saindo para exercer suas funções ( da minha casa, inclusive), enquanto eu não tinha tal necessidade. Aí, como uma boa história tem um bom conflito, chega o momento das dúvidas e desespero.

No começo, apesar de ter um trabalho que executar, ter projetos, ainda sim eu tinha a síndrome do “ não estou fazendo nada”. Apesar de todo o trabalho, apesar de perceber o quanto meu trabalho estava sendo mais produtivo e significativo para mim, eu ainda sim me sentia uma desocupada. Chega a ser inconsciente até. Sei que preciso bater um papo com o Doutor Freud para entender o que pega, mas o fato é que eu tenho uma eterna síndrome do DEU: distúrbio do eternamente útil ( sigla inventada por mim, obrigada). Não importa o quanto eu faça, não importam os trabalhos aos finais de semana. Nada disso é relevante quando me deparo com uma segunda-feira que, por acaso do destino, não haja algo ( ou muito) para se fazer. Uma inesgotável fonte de sofrimento e questionamentos.

A boa notícia ( para mim, pelo menos) é que hoje em dia eu já superei muito desta síndrome. Ou melhor: acho que já consegui descascar algumas camadas desta cebola que é o meu inconsciente e me livrar de algumas cascas podres. O bom nisso tudo é que, superado esse incômodo, eu comecei a olhar por um ângulo diferente e fazer algumas perguntas cruciais. Algumas destas perguntas passaram mais ou menos pelos seguintes caminhos: por que eu tenho que trabalhar loucamente para me sentir útil? Por que eu não posso ter momentos de prazer em uma segunda-feira e ficar tranquila com isso? Por que a moeda de valor é sempre quantitativa, não exatamente qualitativa?

Acho que é batata: assim que você faz uma mudança potente na sua vida, você começa a questionar o conceito corrente de felicidade e o que verdadeiramente te faz feliz. Comigo foi assim. Totalmente assim: até entrar em grupo de estudo sobre a felicidade eu entrei. E, graças a Deus eu fiz isso! Ou: que bom para mim!

Eu nem vou me dar ao trabalho de gastar linhas deste texto expondo sobre o quanto o que consideramos ser felicidade é na realidade um conceito imposto pela sociedade. Vou focar em algo mais prático: menos reclamação, mais ação.

Atualmente, neste maravilhoso grupo que citei, estamos estudando o livro“ Happier: learn the secrets to daily joy and lasting fulfillment” do psicólogo Tal Ben- Shahar, um alguém ( como tantos) que deveria ser mais lido e ouvido. Entre tantas preciosidades que o Tal apresenta neste livro ao seu sortudo leitor, me marcou um conceito que ele traz de “ rat racer”. Ele diz que este “rat racer”  seria um alguém que faz tudo por uma busca de suposta felicidade futura, inclusive prejudicar seu momento presente. E essa busca é uma busca incerta mesmo, sem a certeza da concretização da felicidade.

Entrando em contato com este conceito, comecei a me questionar sobre minhas crenças de sacrifício. Tal: só alcançarei os meus sonhos com muito esforço. Isso é óbvio e inquestionável, só atingimos metas, objetivos e sonhos com um mínimo de disciplina e foco. Mas, é só isso mesmo o tão falado e pouco praticado sentido da vida? Por que não, entre uma tarefa difícil e outra, aproveitar ao máximo uma noite com os amigos ( sim, eu fui ao Karaokê em uma segunda-feira, fiquei até às duas da manhã e saí de alma lavada)? Por que, simplesmente, não fazer nada sem culpa? Por que não dar um passeio ao ar livre?

Enfim, estes questionamentos têm me levado cada vez mais em direção à minha essência e percebo que, colocando em prática, a minha felicidade é mais potente. Explico: eu levo uma vida hoje em dia que na minha concepção de sucesso e felicidade me deixa muito satisfeita. Isso, porque eu trabalho sim, e me dedico muito quando preciso, mas que, ao mesmo tempo, passo muito tempo com a minha família, o amor da minha vida, os amigos e fazendo coisas que amo.

Ainda estou longe de achar a resposta ideal, ou de chegar ao destino felicidade. No entanto, posso dizer com um frio na barriga que a jornada tem sido significativa e prazerosa. Como não tenho mais palavras particulares para me expressas deixo, então, as belas e esclarecedoras palavras do Tal Ben-Shahar para encerrar por ora esta breve e inacabada reflexão.  Deixo-as com a esperança de que elas alcancem aqueles que devam ser alcançados:

“When the questions that guide our life are about finding more meaning and pleasure (happiness perception) rather than about how we can acquire more money and more possessions (material perception), we are much more likely to derive benefi t from the journey as well as the destination. “

Tradução livre:  "Quando as questões que guiam nossa vida estão centradas no fato de encontrar mais significado e prazer ( percepção de felicidade) em vez  de o quanto podemos ganhar mais dinheiro e mais posses ( percepção material), temos mais chances de obter benefícios ao longo da jornada tanto quanto do destino”

Que a felicidade te encontre e te acompanhe...=) 

Posted on August 9, 2016 .