Alteridade

Acho que não deve ser muito segredo, mas vou relatar algo sobre minha alma , mais uma vez, por aqui: eu amo palavras. Sim, eu amo e tenho as minhas preferências. E minhas antipatias também, claro.

Confesso que nunca pesquisei muito sobre a relação entre escritores e determinadas palavras, mas, pelo que leio, pelo que sinto, dá para perceber que há sim uma leve preferência por algumas. Uma preferência que ajuda a nortear a construção do texto, isso é fato.

Pode ser até maior do que nós: às vezes não tem tanto sentido, às vezes nem percebemos, mas a tal palavra precisa compor a teia juntamente com todas as outras do texto. Preferimos umas, preterimos outras; e assim seguimos até nos deparar com novas paixões em forma de letras ( podem ser em formato cursivo ou de forma, isso tanto faz!).

Seguindo sem demoras para o prático, algumas palavras que amo:  essência, expansão e consciência. Algumas pelo significado, algumas pelo som, algumas pela beleza. Mas, pera: pela beleza? Ah, vai negar que indizível não é uma palavra linda? Vai negar que você não sente a sua alma elevar ao exaltar a palavra indizível? Aliás, alma é uma palavra pra lá de linda também, não é mesmo? Mas, pensando bem, talvez isso seja algo somente de Anna.

Tudo bem, esses quatro parágrafos serviram apenas para introduzir o  fato de que amo a palavra alteridade. Será  o som? Será o significado? Será por parecer uma palavra tão simples, mas que ao mesmo tempo é tão profunda? Alteridade: tão bonita, tão desafiadora, tão necessária. A vida em sociedade exige alteridade, por mais que em alguns momentos  - especialmente aqueles em que somos confrontados pela raiva ou pelo desconforto que nos proporciona o diferente – a gente queira esquecer isso.

Alteridade pode gerar tanto desconforto que até mesmo esse texto está me fazendo sentir isso. Estou aqui, escrevendo, mas talvez não querendo escrever, pensando em como falar mas não falar tanto, em como traduzir algo que muitas vezes nem experimentei o sabor.

Eu sou uma pessoa que, por tentar trabalhar muito o autoconhecimento, às vezes finjo que já estou lá na frente sabendo muita coisa sobre mim. Mas, no fundo no fundo, o melhor é não saber e sentir o meu universo expandir quando descubro algo novo sobre mim ou sobre o outro ( expansão <3 ).

Por exemplo, estou quase no fim do livro “A coragem de ser imperfeito” da Brené Brown -ps:  dá pra perceber que sou tão ansiosa que nem consigo terminar de ler o livro antes de organizar minhas reflexões sobre o tema - e posso dizer que meu universo reagiu em forte expansão ao entrar em contato com as palavras da Brené. A primeira expansão foi quando os conceitos que tinha sobre uma pesquisadora foram por água abaixo: como assim uma pesquisadora pode falar de uma maneira tão simples e profunda, quase espiritual, sobre temas tão não acadêmicos?

Veja bem, não tenho nada contra pesquisadores , aliás adoro pesquisadores, mas a contadora de histórias ( que é como ela gosta de se chamar) trouxe significados para temas como amor, conexão e confiança de uma forma que nunca fez tanto sentido. E, enquanto eu lia tudo, desse tudo que tocava muito meu coração, eu só pensava: como ela conseguiu isso??

Pois bem, para mim ela conseguiu. E ela me fez enxergar o lado do outro que não sou eu: pessoas de gênero masculino, policiais, líderes, mães e pais, adultos, e por aí vai. A verdade é que muitas vezes estamos tão presos a uma narrativa particular, na nossa forma aparentemente perfeita de entender tudo, que esquecemos que a nossa narrativa na maioria dos casos é falha. Porque toda história tem mais de um lado, às vezes até milhões de lado, quando estamos falando de países, etnias, etc.

Nunca é fácil sair da nossa visão limitada de mundo. Mas essa narrativa única não está funcionando, não é mesmo? Afinal, há guerras, relacionamentos que terminam com as partes sem o menor nível de comunicação, há brigas por políticas, e por aí vai. Será que estamos tão certos assim? Será que não vale a pena tentar uma nova abordagem, um novo ângulo.

Para mim, os Beatles são grandes revolucionários por nos trazerem (ou nos lembrarem) a mensagem de que tudo que precisamos é o amor. Um amor que envolve enxergar a mim, ao outro e o todo.

Posted on March 6, 2018 .